Bolsonaro, a Papuda e o lugar que a história preparou

Uma Crônica urgente sobre poder, linguagem e consequência no Brasil de agora

Foto por Reuters/Diego Herculano

Escrevo com o ouvido colado no chão do Brasil. Não por pose literária, mas por necessidade. O país fala baixo e grita, bem alto, ao mesmo tempo. Às vezes vem em samba distante, às vezes em sirene rasgando a madrugada. Nos últimos anos, veio como martelada seca no peito. A trajetória de Jair Messias Bolsonaro nunca foi acidente de percurso. Foi um trilho enferrujado rangendo desde o começo, apontando para um destino previsível. 

Olho esse caminho como quem observa um rio turvo correnteza abaixo. No início parecia bravata de bar, teatro barato de palanque, piada que ninguém levava tão a sério. Depois virou método. E método perigoso. Quem governa com escárnio governa com risco. Quem governa com ódio governa contra a própria vida em sociedade. A mim, nunca enganou.


A linguagem que vira arma

Quando revisito as frases registradas em vídeo, reportagem e arquivo público, sinto o peso do que foi normalizado. Bolsonaro falou de filhos “meio gayzinho” que precisam de um “couro” para mudar de comportamento. Mandou “queimar a rosquinha onde tu bem entender”. Chamou pessoas LGBTQIA+ de “essa coisa de viado que eles estão fazendo”. E soltou, com frieza, a pergunta que ainda ecoa como tapa: “você contrataria um motorista gay pra levar seu filho na escola? Claro que não.”

Isso não é deslize de fala. É arquitetura de preconceito. É linguagem que autoriza agressão, legitima humilhação e transforma diferença em suspeita permanente. Um líder que fala assim ensina milhões a falar igual. Um presidente que fala assim fabrica, sem carimbo oficial, uma licença social para discriminar. O perigo não mora só nas palavras, mora na naturalização delas.


Pandemia, descaso e vidas perdidas

Veio então a Covid, bicho invisível batendo forte no coração do Brasil. Enquanto hospitais lotavam e famílias choravam, Bolsonaro chamava a doença de “gripezinha”, zombava de máscaras, sabotava campanhas de vacinação e retardava compras de imunizantes quando cada dia custava vidas. O resultado foi concreto, não retórico. Corpos, luto, filas, respiradores faltando, um país cambaleando.

Ele fazia discurso enquanto o vírus fazia tum-tum no peito da nação. Esse capítulo não cabe em metáfora bonita. Cabe em números, relatórios e memória coletiva.


O flerte com o golpe

Depois veio o cerco à democracia. Reuniões obscuras, pressão sobre instituições, questionamento sistemático das urnas sem provas, fabricação de desconfiança como estratégia política. Mesmo quem evita a palavra “golpe” precisa enxergar o padrão antirrepublicano. Não era paixão partidária, era jogo de alto risco com as regras básicas do país.


A farsa do vitimismo

Quando surgiu a possibilidade de prisão na Papuda, aliados montaram um melodrama. Diziam que o ar-condicionado da sala da Polícia Federal torturava, que o espaço era desumano, que ministros queriam “matar Bolsonaro”. Puro teatro digital, embalado em live e postagem.

A realidade era outra. A sala da PF era funcional, com cama, banheiro, alimentação regular e segurança. Condições melhores que as de milhões de brasileiros que vivem em cômodos apertados sem ventilação adequada. E, ironicamente, a cela atual na Papuda é maior que o apartamento onde eu moro. Não escrevo isso por ressentimento. Escrevo para expor a hipocrisia do choro encenado.


Papuda como espelho moral

Quando muita gente fala em Papuda, não fala só de endereço prisional em Brasília. Fala de símbolo. Um lembrete de que ninguém está acima da lei, por mais faixa presidencial que tenha usado. Não como espetáculo de revanche, mas como afirmação de princípio republicano.

Aqui vale clareza para evitar confusão. Joaquim Mesquita não é Bolsonaro. Ele é o repórter da Reuters que assinou matérias sobre o caso e sobre a Papuda. Fonte jornalística, não personagem político.

Bolsonaro faz piada sobre prisão em vídeo de 2017: “a Papuda lhe espera” 

Impacto e legado

Bolsonaro deixou marcas profundas. Normalizou o insulto como política, transformou descaso em método de governo e fez da suspeita permanente um instrumento de poder. Escolheu ser incêndio quando poderia ter sido farol. Jogou querosene em fissuras sociais já abertas.

A democracia brasileira aguenta conflito e debate duro. O que ela não aguenta é sabotagem, desumanização e mentira sistemática como estratégia de Estado.


Conclusão, sem dourar a pílula

Bolsonaro está no complexo da Papuda de fato e não foi por quem ele xingou apenas. Foi por ter convertido preconceito em política, negligência em gestão e ataque às instituições em prática cotidiana, culminando na tentativa de golpe.

Eu continuo escrevendo com raiva controlada e muita lucidez, baseado nos fatos, porque tenho responsabilidade pública. Se a história prepara um lugar para cada um, meu trabalho é lembrar por que esse lugar existe.

O Brasil merece menos barulho de ar-condicionado e mais vento de verdade, aquele que limpa, areja e empurra o país para frente.

foto por  Foto: REUTERS/Mateus Bonomi/File Photo

Fontes e referências essenciais

  • Reportagens da Reuters Brasil assinadas por Joaquim Mesquita sobre Bolsonaro e a Papuda.
  • Relatórios e depoimentos da CPI da Covid no Senado.
  • Decisões e comunicados do TSE sobre segurança das urnas eletrônicas.
  • Arquivos públicos de vídeos e pronunciamentos oficiais de Jair Bolsonaro durante o mandato.

Sal

Jornalista, blogueiro, letrista, já fui cantor em uma banda de rock, fotógrafo, fã de música, quadrinhos e cinema...

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