Por que escolher ficar em casa faz tanto sentido hoje
Ficar em casa também é um manifesto ou quando o mundo chama pra fora e eu atendo com um pijama
Eu confesso sem culpa e sem atestado médico. Eu gosto de ficar em casa. E não, isso não é preguiça, recalque social ou falta de amigos. É opção mesmo. Escolha consciente, refletida, maturada no silêncio do sofá e no barulho educado da cafeteira. Ficar em casa, pra mim, virou uma espécie de crônica diária. Um gesto político doméstico. Um manifesto em pantufas.
Durante muito tempo, parecia que ficar em casa precisava de justificativa. Talvez porque eu esteja batendo à porta dos 55 anos, e isso venha com um pacote invisível de expectativas alheias. Como se o mundo lá fora fosse uma obrigação moral e a casa, uma falha de caráter. Não fui. Não apareci. Não confirmei presença. Pronto. O constrangimento vinha no pacote, quase como brinde indesejado. Mas aí a vida foi passando, os convites se repetindo, e eu fui entendendo uma coisa simples. Nem toda ausência é fuga. Às vezes é só permanência.

A casa como território afetivo
Chegar até aqui também ajuda a explicar muita coisa. Eu já fiz muita coisa na vida, graças a Deus, entenda. Conheci gente pra caramba, morei em vários lugares, circulei, viajei, vivi histórias que dariam umas boas crônicas. Não fiquei parado esperando o mundo passar. Eu fui ao mundo. Agora, de vez em quando, gosto que o mundo venha até mim, nem que seja pela janela, ou pela tela do meu velho computador.
Minha casa não é um bunker, é um cenário. Tem trilha sonora, iluminação variável e figurino confortável. Aqui dentro, eu não preciso performar entusiasmo. Posso gostar das coisas em silêncio. Posso ouvir um disco inteiro sem explicar por quê. Posso pausar um filme no meio pra pegar água e esquecer de voltar. Isso, pra mim, é liberdade.
O curioso é que, quanto mais eu fico em casa, mais eu me encontro. Parece contraditório, mas faz sentido. O mundo anda barulhento demais, cheio de opinião urgente, notificação piscando, gente que fala antes de pensar e pensa depois de falar. Ficar em casa virou meu filtro de ruído. Uma forma educada de dizer ao caos que hoje não dá.
O mito da vida acontecendo lá fora
Existe uma lenda urbana muito difundida de que a vida acontece sempre fora de casa. No bar, na festa, no evento imperdível que todo mundo vai comentar amanhã. Só que a vida, essa danada, é meio anárquica. Ela acontece onde a gente está inteiro. Às vezes, isso é numa mesa cheia de gente. Às vezes, é numa terça-feira qualquer, de calção velho, ouvindo o mesmo disco pela terceira vez.
E tá tudo bem.
O problema não é sair. Nunca foi. O problema é sair sem vontade, por inércia, por medo de parecer antissocial. Antissocial, aliás, é uma palavra injustiçada. Social demais também cansa, mas ninguém fala disso. E quer saber? Eu adorei não ter ido para vários lugares.
Humor, silêncio e pequenas epifanias
Ficar em casa pra mim tem uma parada muito própria, contemplativa. É rir sozinho de uma lembrança aleatória. É discutir mentalmente com um apresentador de TV que não pode te responder. É abrir a geladeira sem fome, só pra conferir se algo mágico aconteceu desde a última visita.
Nesses momentos, surgem as melhores ideias. Os textos que não pedem permissão. As associações improváveis. As epifanias inúteis, que não servem pra nada, mas fazem o dia valer a pena. Criatividade gosta de conforto. E de silêncio. Muito silêncio.
Ficar em casa não é desistir do mundo
Antes que alguém pense, não, eu não desisti do mundo. Só que depois de tantas idas e vindas, de tantas portas abertas, de tantas conversas, eu fiquei em paz com uma descoberta simples. Eu estou bem comigo mesmo sendo caseiro. E isso não tem nada de derrota. Só negociei melhor minha presença nele. Escolhi quando ir, quando ficar, quando ouvir, quando calar. Ficar em casa não me afastou das pessoas. Me aproximou de mim mesmo. E isso muda tudo.
Talvez seja isso que incomode. Quem fica em casa por escolha quebra uma expectativa. Desmonta um roteiro. Mostra que existe prazer fora do cardápio oficial da diversão. E isso soa quase subversivo.

Conclusão que não fecha, só deixa a porta encostada
No fim das contas, ficar em casa é meu jeito de estar no mundo sem pedir desculpa. É onde eu descanso, penso, crio e, vez ou outra, não faço absolutamente nada. E fazer nada, convenhamos, anda sendo uma arte rara.
Escolher ficar em casa virou um exercício de autonomia. Um gesto simples que diz muito sobre como eu quero viver, criar e me relacionar com o tempo. Não é regra, não é dogma. É só um acordo honesto comigo mesmo.
Se o mundo lá fora não entende, paciência. Eu explico depois. Ou não. Agora, se me dá licença, vou ali ficar em casa.
Salve esta play para ouvir nos seus momentos em casa!
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