Yesterday and Today: o álbum que os Beatles nunca planejaram

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Como a Capitol criou um clássico improvável a partir de sobras, polêmica e censura


Eu sempre digo que a história dos Beatles é também a história da indústria fonográfica. Não sei se você concorda ou discorda de mim, mas creio que esse pontos sejam indissociáveis um do outro. Poucos discos deixam isso tão evidente quanto Yesterday and Today. Um álbum que não foi pensado pela banda, não existe na discografia britânica oficial e, ainda assim, virou peça-chave pra entender o tamanho do fenômeno Beatles nos anos 1960.

Lançado em 1966 apenas nos Estados Unidos e no Canadá, Yesterday and Today completa seis décadas carregando um peso simbólico enorme. Ele representa o conflito entre arte e mercado, entre controle criativo e decisões comerciais, entre Londres e Hollywood. Um disco montado por executivos, mas que acabou entrando para a história.


O contexto americano e a lógica da Capitol Records

Quem mergulha na biografia dos Fab4 sabe. Até 1967, a discografia dos Beatles nos Estados Unidos era bem diferente da britânica. A Capitol Records tinha o hábito de reorganizar os álbuns lançados pela EMI no Reino Unido. Cortava faixas, reaproveitava singles, misturava gravações recentes com músicas de sessões anteriores. Tudo em nome de uma estratégia comercial mais agressiva.

Yesterday and Today nasce exatamente desse processo. Ele é o nono álbum dos Beatles lançado pela Capitol e o décimo segundo no mercado americano. Um verdadeiro mosaico sonoro, montado a partir de faixas que haviam ficado de fora de lançamentos anteriores nos EUA.

O resultado é um disco com 11 músicas que mistura canções de Help! e Rubber Soul, além de três gravações de 1966 que, fora da América do Norte, só apareceriam depois em Revolver. Não há conceito, unidade estética ou narrativa. O fio condutor é outro: manter os Beatles constantemente nas prateleiras.


Um álbum híbrido, mas cheio de força

Mesmo sendo um produto claramente montado, Yesterday and Today tem força musical. Canções como Yesterday, Drive My Car, Nowhere Man, Day Tripper e We Can Work It Out mostram uma banda em plena transição criativa.

Esse período marca o fim definitivo da fase inocente e o avanço rumo a uma sonoridade mais adulta, experimental e autoral. Ainda que o álbum não tenha sido pensado assim, ele acaba funcionando como um retrato acidental desse momento de virada.

Há aqui o Beatles pop, o Beatles introspectivo e o Beatles que já começa a tensionar limites. Um disco irregular na forma, mas potente no conteúdo.


A capa que virou caso de polícia cultural

Se musicalmente o álbum já chama atenção, visualmente ele entra para a história de forma explosiva. A capa original, conhecida como Butcher Cover (Capa de açougueiro), mostra os Beatles vestidos de açougueiros, cercados por bonecas mutiladas e pedaços de carne.

A imagem causou choque imediato. EUA, né? Sempre eles. Protetores da moral e dos bons costumes! Bleargh! Bom, o fato é que lojas se recusaram a vender o disco, rádios protestaram, grupos conservadores reagiram com fúria. A Capitol recuou rapidamente e substituiu a arte por uma capa mais neutra, colando-a por cima da original em milhares de cópias já prensadas.

Esse gesto transformou o disco numa raridade. Exemplares que ainda preservam a capa original, ou mesmo aqueles em que ela aparece sob a colagem, tornaram-se objetos de desejo de colecionadores no mundo inteiro.

Mais do que uma polêmica estética, a capa revela o quanto os Beatles já estavam dispostos a provocar, ironizar e confrontar expectativas. Mesmo quando o controle não era totalmente deles.


Arte, mercado e ruído

Yesterday and Today é um disco sobre ruído. Ruído entre banda e gravadora. Entre intenção artística e lógica industrial. Entre o que os Beatles queriam ser e o que o mercado esperava deles.

Ao mesmo tempo, esse ruído ajuda a explicar por que 1966 foi um ano decisivo. Pouco depois, a banda encerraria as turnês, assumiria controle criativo total e mudaria para sempre o modo de fazer discos de rock.

Esse álbum, meio sem querer, antecipa o colapso de um modelo. O modelo que tratava artistas como fornecedores de singles e não como criadores de obras.


Impacto e legado

Hoje, Yesterday and Today é visto com outros olhos. Não como um álbum essencial da discografia oficial britânica, mas como um documento histórico valioso. Ele ajuda a entender os bastidores, as disputas e as engrenagens que giravam por trás do maior fenômeno pop do século XX.

É também um lembrete de que grandes obras nem sempre nascem de grandes planos. Às vezes, surgem do improviso, do conflito e até do erro.


Conclusão

Yesterday and Today talvez seja o álbum que os Beatles nunca planejaram. Mas é, sem dúvida, um dos discos que melhor explicam quem eles estavam se tornando em 1966.

Entre faixas brilhantes, decisões questionáveis e uma das capas mais controversas da história da música, o álbum permanece vivo. Não como unanimidade, mas como provocação.

E talvez seja exatamente aí que mora sua força.

Sal

Jornalista, blogueiro, letrista, já fui cantor em uma banda de rock, fotógrafo, fã de música, quadrinhos e cinema...

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