Roberto Carlos 1973–1977: a consolidação do Rei romântico

Como cinco discos transformaram Roberto Carlos no maior intérprete do romantismo brasileiro e moldaram a memória afetiva de gerações

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Eu não gosto muito da palavra “fase” quando a gente fala de Roberto Carlos. “Fase” dá a impressão de algo passageiro, quase um desvio de rota. E o que acontece entre 1973 e 1977 na obra do Roberto não é isso. É projeto. É decisão. É maturação. É quando o romantismo deixa de ser apenas um elemento e passa a ser a espinha dorsal de tudo.

Essa live do Pitadas do Sal, com o músico, pesquisador e colecionador Alan James, não foi apenas mais uma conversa sobre discos. Foi, como eu disse logo na abertura, uma celebração. Uma tentativa honesta de entender como Roberto Carlos, já gigante, já popular, já consagrado, resolve vestir de vez o “terno do cantor romântico” e simplesmente não tirar mais. E não por falta de imaginação, mas porque ali ele encontra um território que ninguém mais ocupava daquele jeito.

Entre 1973 e 1977, Roberto deixa para trás o garoto rebelde da Jovem Guarda, o galã dos filmes, o ídolo pop barulhento, e assume o papel de intérprete do sentimento brasileiro. Um cara que canta o amor, o cotidiano, a ausência, o desejo, a despedida e até o silêncio entre uma palavra e outra.

Como o Alan resumiu muito bem durante a conversa, “73 é a virada definitiva”. E é a partir desse ponto que tudo se encaixa.


Antes de 73: o chão já estava preparado

É importante dizer uma coisa sem rodeio. Roberto Carlos não chega em 1973 “do nada”. Ele vinha de uma sequência absurda de sucesso. Jovem Guarda, discos de ouro, festivais, televisão, cinema, Sanremo, Canecão com duas baterias, produção grandiosa, uma máquina cultural funcionando a todo vapor.

Mas havia ali um incômodo criativo. Uma necessidade de aprofundar. O romantismo já estava presente em discos anteriores, especialmente a partir de 1971 e 1972, mas ainda misturado com outras coisas. Ainda havia resquícios da canção mais episódica, do personagem pop.

O que acontece em 1973 é um gesto consciente. Como o Alan lembrou na live, o empresário Marcos Lázaro teve papel importante nesse direcionamento, incentivando Roberto a assumir aquilo que ele já era. Um cantor de emoções grandes, entrega intensa e interpretação minuciosa.

Eu disse durante a conversa e sigo achando isso. É como um barco que vira o leme devagar e encontra um mar mais profundo.


Essa sequência de discos não é um mero conjunto de canções; é um movimento contínuo de construção de linguagem, sentimento, estética e identidade. Se lá atrás, entre 1968 e 1972, a gente viu o Roberto desatando os nós entre rock, soul e canção romântica, nesse período ele joga a chave na fechadura do coração e diz: “Eu vou contar isso ao Brasil inteiro”.

Este post é uma viagem cronológica, sensível e detalhada por esses cinco álbuns que marcam uma das mais profundas metamorfoses da música popular brasileira. Prepara o coração e segue comigo.

A dupla Erasmo e Roberto, em plena atividade nos anos 1970

1) 1973 — Roberto Carlos (1973)

O início da grande transição

O disco de 1973 tem uma história curiosa: foi o primeiro LP anual de Roberto a sair com apenas dez faixas, contra o padrão de doze que ele vinha seguindo. A explicação é técnica e artística, mais faixas significariam mais sulcos no vinil e Roberto optou pela qualidade de som sobre a quantidade. São apenas dez faixas. Menos quantidade, mais intensidade. Como eu brinquei na live, é aquele vinho que respira melhor quando você não enche demais a taça.

A capa já diz tudo. Os cachos dominando a imagem, a sombra no rosto, o olhar sério. Não tem mais sorriso juvenil ali. Tem introspecção. Tem desejo. Tem mistério.

Esse álbum tem faixas que já apontam para uma nova fase: “A Cigana”, “Proposta”, “Amigos, Amigos”, “Rotina”, e uma versão poderosa de “El Día Que Me Quieras” de Gardel e Le Pera, sinal claro de que o repertório do Rei estava expandindo para além das fronteiras linguísticas e territoriais.

Aqui Roberto já soa menos menino pop e mais homem que se volta para a alma: há mistério, desejo direto, cotidiano transformado em canção. Como eu comentei na live, “Proposta” é quase uma declaração civilizada de desejo numa época em que quase ninguém falava de amor assim no Brasil.”

Esse disco começa a mostrar que o amor e tudo o que ele carrega não é mais um tema periférico. Ele é o centro do microfone. Como eu disse na live, quando era garoto eu não percebia essa intensidade. Hoje é impossível não perceber.


2) 1974 — Roberto Carlos (1974)

A consolidação do artista emocional

Se 1973 abre a porta, 1974 organiza a casa. O repertório do álbum mistura composições inéditas com releituras, versão de música latino-americana. Esse é o disco de “É Preciso Saber Viver”  “Ternura Antiga”, “O Portão” e “Eu Quero Apenas”.

Aqui não é apenas romance: é reflexão, elegância e nostalgia profunda. A faixa “O Portão” funciona como metáfora expansiva para um artista que está abrindo mais do que “portas”. Ele está abrindo espaço para a emoção e convidando o ouvinte a entrar.

É também o ano do primeiro especial na Globo, algo que se tornaria um ritual anual e parte do imaginário afetivo do Brasil. Roberto já não é apenas um cantor de sucesso. Ele é um evento cultural.

Como eu disse na live, 1974 é quando Roberto já não está experimentando ele consolida sua voz como narrador das emoções humanas mais complexas. A vida inteira parece ter se tornado palatável em versos e melodias. Aqui, como o Alan bem observou, começa também uma estratégia clara de projeção no mercado latino, algo que se fortaleceria nos anos seguintes.

É um álbum elegante, seguro e fundamental para entender por que Roberto passa a ocupar esse lugar quase incontestável de cantor do amor.


3) 1975 — Roberto Carlos (1975)

O romantismo encontra o pop e o universo se amplia

Se em 1974 o sentimento se organiza, em 1975 ele se liberta e se expande. Este álbum é marcado por uma mistura mais ampla de sons e compositores. Roberto faz uma releitura de como “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno” (regravação de um de seus primeiros hits em outra roupagem) e incorpora “Além do Horizonte”, “Olha”, “Seu Corpo”, e o encontro com a MPB por meio de “Mucuripe” de Fagner e Belchior.

Aqui o romantismo não é mais só um soldado em batalha íntima. Ele é pop, ele é acessível, ele é universal. Roberto expande sua paleta emocional, reflete otimismo, desejo, convites ao futuro, sonhos de “horizonte” e resoluções que não cabem apenas no lar. Ele sai da janela e olha para o céu inteiro.

Neste disco o som se expande. Os arranjos ficam mais amplos, mais cosmopolitas. Roberto grava fora, dialoga com outras gerações, se permite ousar. Escolhe compositores fora da sua zona de conforto. 

Como disse Alan, este é um Roberto que se permite experimentar sem perder a identidade. Um romantismo que viaja, aprende sotaques, conquista outros territórios.

Esse disco mostra um artista seguro o suficiente para arriscar. E isso, num cantor já gigantesco, não é pouca coisa.

Eu comentei na transmissão que esse disco me soa como um romantismo com passaporte internacional, e não é por acaso. É um ano em que o repertório é mais amplo e dialoga diretamente com o mundo e seus códigos emocionais.


4) 1976 — Roberto Carlos (1976)

Amor com consciência e intensidade

1976 é um dos discos mais interessantes da sequência. Ele mantém o foco no amor, mas também começa a incorporar temas mais amplos de reflexão e consciência social. A canção “O Progresso” aparece como um dos primeiros momentos de Roberto cantando sobre ecologia, antes desse tema se tornar comum no repertório pop.

O LP também traz faixas como “Os Seus Botões” e “Você em Minha Vida”, que permaneceram nos repertórios ao vivo por muitos anos, e canções de forte presença emocional como “Pelo Avesso” e “Um Jeito Estúpido de Te Amar”.

Aqui o romantismo de Roberto já não é apenas sentimento-clichê: ele cresce em densidade, ambiguidade e profundidade. A voz dele já é instrumento de reflexão. É como se ele cantasse não apenas o que ama, mas como e por quê ama.

Na live a gente brincou com a ideia de que 1976 é o disco em que Roberto coloca o amor no divã da terapeuta e pergunta: “O que você tá fazendo comigo?” É engraçado dizer assim, mas tem um fundo de verdade impressionante. É o disco que Roberto atinge, pela primeira vez, a marca de 1 milhão de discos vendidos. Algo que ele “perseguia” há tempos.

Neste álbum, Roberto é senhor absoluto do seu território artístico. Interpretação afiadíssima, controle vocal impressionante, uso preciso de vibrato, entrega emocional sem exagero. Um cantor que sabe exatamente o que está fazendo.


5) 1977 — Roberto Carlos (1977)

O auge do intérprete romântico

Se há um disco onde Roberto já não só fala de amor, mas faz amor com a linguagem, é esse de 1977. É o álbum mais vendido da carreira dele, com mais de 2 milhões de cópias, e contém faixas que se tornaram imortais no repertório afetivo brasileiro, como “Amigo”, “Falando Sério”, “Outra Vez”, e “Cavalgada”.

“Amigo” se tornou quase um hino de lealdade e companheirismo, ecoando tanto em celebrações íntimas quanto em eventos públicos, e chegou a ser cantada por crianças para o Papa João Paulo II em 1979, no México.

“Falando Sério” abre o peito em termos que ninguém esperava que um grande cantor romântico popular pudesse dizer. “Outra Vez” transforma saudade em narrativa melodramática de forma elegante. “Cavalgada” flerta com sensualidade de modo surpreendente para aquele contexto.

Aqui, o amor já não é topografia íntima ou território isolado: ele é paisagem, drama, festa, memória, desejo, despedida, convite e comunhão.


Além das canções — um cantor que sabia usar a própria voz

Durante a live, falamos bastante sobre a técnica vocal do Roberto. Ele nunca teve uma voz gigantesca no sentido clássico. Mas sempre foi afinadíssimo, inteligente no uso da interpretação, preciso no encaixe emocional.

Como Alan lembrou, ele sabia a hora de colocar o vibrato e a hora de tirar. Mudou o padrão vocal quando precisou, deixou o canto mais anasalado em certos momentos, encorpou em outros. Isso é domínio de ofício.

Roberto não era apenas um compositor que cantava. Era, acima de tudo, um cantor que compunha.

O que liga todos esses discos é, antes de tudo, uma lógica estética da transformação emocional. Roberto não está apenas cantando amor; ele as está organizando. As canções narram de forma consistente como um artista enorme transforma intimidade em universalidade sonora.

Como dissemos na live, esse período funciona como uma linha do tempo sensível, em que cada álbum não é um episódio isolado, mas um capítulo de um romance maior, aquele entre Roberto e o Brasil inteiro.


O Brasil que aprendeu a sentir ouvindo o Rei

O que Roberto Carlos construiu entre 1973 e 1977 vai muito além de uma sequência de discos românticos bem-sucedidos. Ali nasce uma verdadeira gramática do afeto brasileiro. Foi nesse período que ele nos ajudou a dar nome às emoções do dia a dia. A tristeza que chega sem avisar, a alegria que explode, o desejo que arde em silêncio, a amizade que sustenta, a saudade que aperta e a melancolia que insiste em ficar.

Roberto não gravou apenas cinco grandes álbuns. Ele ergueu uma linguagem. Um modo particular de cantar o amor que atravessou gerações, entrou nas salas das casas, embalou histórias íntimas e se entranhou na memória coletiva do país. Sua música passou a ser trilha de encontros, despedidas, reconciliações e promessas sussurradas.

Se hoje falamos de romantismo popular sem constrangimento, é porque nesses anos Roberto se tornou ponte, espelho e farol. Mostrou que o amor é assunto sério, digno de canção cotidiana, de arranjos cuidadosos, de letras diretas e de emoção sem ironia. Ele tirou o sentimento do exagero e o colocou no lugar do essencial.

E como eu disse na live, essa travessia não é nostalgia nem simples saudade. É história viva, pulsante. A prova de que Roberto Carlos não apenas representou um estilo, mas inventou uma linguagem afetiva que segue conversando com a gente, mesmo décadas depois.

A intenção dessa live com Alan James, foi para nós a nossa maneira de exercitar essa coisa da escuta atenta e respeito. Um olhar carinhoso sobre um período fundamental, sem idolatria cega, mas também sem cinismo fácil. Porque entender Roberto Carlos é, em alguma medida, entender o Brasil emocional que a gente carrega no peito.

E se hoje ele é chamado de Rei, não é por acaso. É porque nesse intervalo de tempo ele trabalhou como um verdadeiro artesão do sentimento. Disco a disco. Verso a verso. Silêncio a silêncio.


Sal

Jornalista, blogueiro, letrista, já fui cantor em uma banda de rock, fotógrafo, fã de música, quadrinhos e cinema...

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