Feminicídio no Brasil: uma crônica sobre dor, dados e responsabilidade ou “E se a gente parasse de enterrar mulheres e começasse a enterrar o machismo?”
Eu cresci ouvindo que “homem de verdade protege mulher”. E, por muito tempo, achei que isso fazia algum sentido. Hoje percebo o tamanho da bobagem. Porque, no fim das contas, não é sobre proteger, é sobre não ser ameaça. É sobre não ser mais um tijolo nesse muro torto que a gente ergueu como sociedade. Um muro que esconde, abafa, corrói, e que empurra mulheres, todos os dias, para estatísticas que deveriam nos envergonhar a ponto de mover montanhas.
Cada vez que vejo a notificação de mais um feminicídio, sinto um negócio que eu só posso chamar de náusea moral. Um enjoo que não passa. Eu não sou melhor que ninguém. Sou homem, criado na mesma cultura machista que forjou outros homens, muitos deles violentos. Aprendi errado, desaprendi na marra e continuo tentando aprender o certo. O mínimo é olhar para esse buraco do tamanho de um país e dizer: eu tenho responsabilidade nisso.
E tenho mesmo.
O feminicídio no Brasil não é um problema abstrato, desses que a gente comenta no café: “terrível, né?”. É uma ferida aberta e pulsante. É o grito engolido de meninas, mulheres negras, mães, avós, filhas que deveriam estar vivas. Vivas. A palavra parece simples, mas carrega um mundo inteiro. E, enquanto escrevo, só consigo pensar que, se esse texto servir para um homem mexer um milímetro que seja dentro de si, já vale a pena.

O mapa do horror e do que ainda podemos fazer
Eu organizei uma espécie de mapa conceitual, um guia, um fio para que ninguém se perca. É duro, mas é real. E, se a gente não encarar a realidade, ela engole a gente de volta.
1) Onde estamos — e por que dói tanto admitir
Desde 2015, o feminicídio é crime qualificado no Brasil, definido quando a morte de uma mulher acontece por violência doméstica, discriminação ou menosprezo à condição de mulher.
Mesmo assim, 2024 terminou com mais de mil mulheres assassinadas desta forma. Algumas projeções ultrapassam 1.400 casos. O número é tão grande que perde a forma, vira massa, estatística, neblina. A gente precisa devolver o rosto pra isso.
2) A cor da desigualdade
As mulheres negras são as que mais morrem. Percentuais que passam de 60% em várias séries. Isso não é coincidência. É racismo, é desigualdade, é a prova de que a violência não cai do céu, ela segue o mesmo trajeto da pobreza, da negligência e da exclusão.
3) As aversões que povoam o debate
Sempre tem alguém dizendo que “isso é exagero” ou que “os números são manipulados”. Curiosamente, esses comentários nunca vêm de quem perde filha, mãe, irmã.
Outros dizem que a lei é falha e, de certa forma, é mesmo. Não por existir, mas por depender de investigações que nem sempre enquadram as mortes corretamente. Muitas acabam classificadas só como “homicídio”, e fica por isso mesmo.
4) Por que a lei não basta
A verdade é que falta tudo: estrutura, acolhimento, dados integrados, prevenção.
Tem subnotificação, tem erro de registro, tem a ponta solta entre polícia, saúde e justiça. Tem mulher que pede socorro quatro, cinco, seis vezes, e ninguém escuta.
5) As disputas sobre o que é, e o que deveria ser, feminicídio
A academia debate se o conceito deveria ser ampliado. Movimentos feministas lutam para incluir mortes motivadas por misoginia fora do contexto doméstico. Outros defendem mais rigor técnico. E, no fim, o que está em jogo é simples: quem define a categoria, define quem aparece nas estatísticas, e quem some delas.
6) As lacunas que continuam abertas
Sem políticas interseccionais (que incluam raça, classe, território, idade, deficiência), a gente só tampona o problema. Sem integrar bases de dados, a gente atua no escuro. Sem educação de meninos e homens, a gente só remedia; nunca cura.
7) E nós, homens?
A parte mais desconfortável, e mais necessária.
Ser homem não é só não cometer violência. É desfazer a violência antes que ela nasça.
É cortar piada machista, é intervir na roda de amigos, é assumir que privilégio existe, sim.
É usar meu canal, meu Instagram, meu blog, como ferramentas de combate. É dar voz a quem precisa ser ouvida. É ouvir, principalmente ouvir.
8) O que nós, homens, precisamos fazer agora
Se eu faço 20% de esforço concentrado no que importa, gero 80% do impacto:
- Falar com homens. Especialmente os jovens.
- Fazer vídeos curtos, diretos, educativos.
- Construir parcerias com serviços locais de apoio.
- Pressionar por dados públicos e integrados.
- Criar conteúdo sobre masculinidade, paternidade, consentimento e prevenção.
Nada disso exige milagres. Só exige vontade.

O fio que puxa a mudança
Eu escrevo este texto porque acredito, mesmo que dá para virar esse jogo.
Não com discurso bonito. Mas com ação.
Com homem olhando no espelho e dizendo: “eu posso fazer diferente”.
Com escolas ensinando respeito e igualdade.
Com políticas que coloquem mulheres, especialmente as negras e periféricas, no centro.
Com redes de acolhimento reais, e não apenas cartazes de campanha em novembro.
Com coragem de transformar o que a gente controla: minha palavra, minha voz, meu trabalho.
O feminicídio não é destino. É cultura.
E tudo que é cultural pode ser desconstruído, refeito, reinventado.
A gente precisa escolher:
Ou continuamos enterrando mulheres,
ou começamos a enterrar o machismo que existe dentro de nós.

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