Genealogia do Rock #3: Psicodelia, Jovem Guarda e Tropicália
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O rock dos anos 60 não foi só música, foi terremoto, foi incêndio, foi grito coletivo atravessando oceanos. Entre 1965 e 1969, o som deixou de ser mera trilha de juventude rebelde para se transformar em linguagem universal, capaz de sacudir costumes, desafiar governos e incendiar a imaginação. É sobre esse momento, onde guitarras ecoaram como manifestos e o Brasil respondeu com Jovem Guarda e Tropicália, que eu, Toninho e Feroli, com a participação de Romero Carvalho, mergulhamos na live do dia 27 de agosto de 2025.
O abalo psicodélico
Quando os Beatles largaram a mão da inocência de “She Loves You” e entraram na trip de Revolver e Sgt. Pepper’s, o mundo percebeu: a música podia expandir horizontes. De repente, as canções ficaram cheias de cores, ruídos, experimentos de estúdio, viagens alucinadas. Era como abrir uma porta e encontrar um caleidoscópio infinito.
A cena psicodélica em São Francisco, com Jefferson Airplane e Grateful Dead, foi mais do que estilo musical. Era trilha sonora de uma nova forma de viver: comunas, LSD, contestação, liberdade. O rock deixou de ser “iê-iê-iê” e virou filosofia sonora.
Monterey, Woodstock e a consagração dos festivais
Em 1967, o Festival de Monterey Pop revelou Hendrix queimando guitarras como se fosse um ritual de purificação. No mesmo palco, Janis Joplin rasgou a garganta como se fosse alma viva em carne exposta. Dois anos depois, Woodstock coroou o sonho hippie: meio milhão de jovens reunidos em paz, lama e música. Santana, The Who, Crosby, Stills & Nash, todos escrevendo uma bíblia sonora de três dias. Sem esquecer Altamont, que teve o trágico evento de um assassinato, durante a apresentação dos Rolling Stones.
Foi o auge da contracultura. O rock, pela primeira vez, se via como força política e cultural de impacto global.
Brasil: do Iê-Iê-Iê à Tropicália
Enquanto isso, aqui no Brasil, a TV embalava multidões com o programa Jovem Guarda. Roberto, Erasmo e Wanderléa eram os donos da festa. O rock adaptado ao português virou trilha de namoro, de juventude urbana, de domingo à tarde na frente da televisão.
Mas logo veio a guinada. Em 1967, Caetano, Gil, Os Mutantes e companhia botaram o pé na porta com a Tropicália. Mistura de guitarras elétricas, poesia concreta, bossa nova, baião, kitsch, antropofagia cultural. Era rock, mas era também samba, era manifesto, era carnaval e protesto ao mesmo tempo. Enquanto lá fora Hendrix derretia amplificadores, aqui Caetano cantava “É proibido proibir” e Gil denunciava as caretices nacionais no palco do festival.
A Tropicália foi nosso Woodstock tropical. Um trovão que ainda ecoa.
Rock como linguagem universal
Se a gente parar pra pensar, o que unia esses movimentos era a mesma faísca: vontade de romper limites. O psicodélico borrava as fronteiras da realidade; Woodstock desafiava a ordem estabelecida; a Tropicália zombava do nacionalismo quadrado e abraçava o mundo.
Era o rock se espalhando como um vírus criativo, contaminando tudo: moda, cinema, literatura, comportamento. Até quem não ouvia rock vivia sob sua influência.
O legado
Hoje, quando ouvimos Sgt. Pepper’s, Electric Ladyland ou o disco-manifesto Tropicália ou Panis et Circencis, não estamos apenas ouvindo música. Estamos revisitando uma época em que cada acorde parecia carregado de pólvora, poesia e provocação.
E essa é a grande genealogia do rock: uma árvore de raízes profundas, ramos tortos, mas sempre florescendo em novas direções. A psicodelia, a Jovem Guarda e a Tropicália não foram capítulos isolados. Foram páginas de um mesmo livro: o da transformação cultural que só o rock soube escrever.
🎙️ Esse texto nasceu do especial Genealogia do Rock #3, com Toninho, Feroli e Romero, no Pitadas do Sal.
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