8 de Janeiro de 2023: quando o Brasil olhou o abismo
O ataque golpista, o risco real e o Brasil que quase perdemos

Eu lembro bem daquele 8 de janeiro de 2023. Brasília amanheceu num domingo preguiçoso e terminou em pesadelo. O céu, indiferente, seguiu azul enquanto gente vestida de verde e amarelo resolveu brincar de fim do mundo. Não era carnaval, mas teve fantasia. Não era culto, mas teve oração. Não era ato patriótico, mas teve bandeira enrolada no corpo como capa de super-herói fora de época. E, como toda farsa mal encenada, terminou em destruição.
O risco real que o Brasil correu
O Brasil correu sério risco naquele dia. Risco real, concreto, nada abstrato. As instituições foram atacadas como quem tenta arrancar o coração de um país a murros. Congresso Nacional, Supremo Tribunal Federal, Palácio do Planalto. Tudo ali simboliza algo maior do que concreto, vidro e mármore. Simboliza pacto, regra do jogo, convivência possível entre diferentes.
Quando aquilo foi quebrado, não era só o patrimônio público indo pro chão. Era a própria ideia de democracia sendo chutada como bola velha.
Como estaríamos vivendo se o golpe tivesse dado certo?
Se o golpe tivesse dado certo, o Brasil de hoje seria outro. E não um “outro” melhor, como prometiam os falsos profetas de WhatsApp. Seria um país de medo. Jornalismo vigiado. Oposição silenciada. Arte tratada como inimiga. Educação sob suspeita. Ciência chamada de conspiração.
Um Brasil onde discordar vira crime e pensar vira risco. Um país com cheiro de mofo autoritário, desses que fingem ordem enquanto cultivam o caos.
Deus, pátria e família como farsa política
O mais perverso daquele dia foi o uso cínico de Deus, da família e da pátria como escudo moral. Deus virou senha para vandalismo. Conservadorismo virou desculpa para intolerância. Patriotismo virou fantasia importada, costurada com ódio e desinformação.
Entreguistas, sim. Porque quem quebra o próprio país em nome de uma ideia torta não ama a pátria. Usa. E usa mal.
O conservadorismo ali não conservava nada. Nem valores, nem respeito, nem história. Era só máscara. O patriotismo não defendia o Brasil. Defendia interesses mesquinhos, muitos deles alheios ao próprio país. E Deus, coitado, foi arrastado para o meio da lama como se precisasse de gente armada de paus, pedras e mentiras para existir.
Cicatriz também é memória
O 8 de janeiro deixou cicatriz. Mas cicatriz também é memória. Serve para lembrar que democracia não é garantida, não é automática, não cai do céu. Dá trabalho. Exige vigilância, debate, divergência e, sobretudo, responsabilidade.
Aquele dia mostrou o quão perto estivemos do abismo. E como, por pouco, não escorregamos todos juntos.
O alerta que permanece
Que fique o alerta. Golpes não começam só com tanques. Começam com palavras vazias, símbolos sequestrados e uma falsa sensação de missão divina. Quando a fé vira arma, a pátria vira refém e a democracia vira alvo, o resultado nunca é redenção. É ruína.
E o Brasil, apesar de tudo, sobreviveu. Machucado, sim. Mas de pé. Ainda com chance de aprender. Ainda com tempo de escolher o caminho da democracia, mesmo com suas imperfeições, em vez do atalho sombrio da força bruta travestida de virtude.
Uma playlist que fiz para ouvir e nunca esquecer!
Essa playlist não nasce como trilha sonora de fundo. Ela existe como extensão do texto, como memória em forma de música. O 8 de janeiro de 2023 não foi um episódio isolado, nem um delírio momentâneo. Foi o ponto de ebulição de tensões históricas, sociais e políticas que a música brasileira vem denunciando há décadas.
Cada uma dessas 20 canções ajuda a entender o que estava em jogo naquele dia. Autoritarismo, silenciamento, manipulação de massas, desigualdade, falso moralismo, violência institucional e o uso indevido de símbolos como pátria, Deus e ordem. A música, nesse sentido, funciona como arquivo emocional do país. Onde o discurso falha, a canção registra.
Não é uma playlist partidária. É uma playlist democrática. Reúne artistas de épocas, estilos e linguagens diferentes, mas unidos por um ponto comum: a recusa ao pensamento único, à obediência cega e à força como método político. Do samba ao rap, do rock à canção de protesto, o que se ouve aqui é o Brasil se explicando a si mesmo.
Essas músicas mostram que golpes não surgem do nada. Eles são precedidos por discursos de ódio normalizados, pela desumanização do outro, pela negação da ciência, pela intolerância travestida de virtude. O 8 de janeiro apenas escancarou algo que já vinha sendo cantado há muito tempo.
Incorporar essa playlist ao texto é um gesto de memória e de alerta. É lembrar que a democracia não se defende apenas nas urnas ou nos tribunais, mas também na cultura, na arte e na capacidade de escutar. Escutar o que já foi dito, cantado e avisado.
Ouvir essas canções hoje não é exercício de nostalgia. É ferramenta de leitura do presente. Porque, no Brasil, a música quase sempre chega antes do desastre. E quase sempre avisa.
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