O comunismo real é bem diferente do espantalho político

Teoria, prática histórica e por que essa confusão ainda domina o debate


SEU COMUNISTA!

Essa acusação não aparece por acaso. Ela sempre surge quando o debate esquenta e alguém precisa de um argumento rápido pra vencer a discussão. Normalmente vem acompanhada de dedo em riste, voz elevada e pouco interesse em entender o que está sendo dito. Já reparou?

Afinal, o comunismo já foi implementado em algum país?

Eu resolvi encarar essa questão não pra dar uma resposta definitiva, mas pra provocar a reflexão certa. Porque, dependendo do que você entende por comunismo, a resposta muda completamente. E é aí que muita gente se perde, ou finge que não percebe.

No Brasil, esse ruído é ainda maior. Aqui, comunismo virou xingamento genérico, espantalho eleitoral, palavra mágica pra explicar tudo que desagrada. Pouco importa o conceito. Importa o medo que ele carrega.

Então a proposta deste texto é simples. Vamos tirar o comunismo do palanque e colocar na mesa. Olhar pra teoria, pra história e pros exemplos concretos, inclusive os nossos. Sem blindagem ideológica, mas também sem caricatura.


Contextualização histórica e conceitual

O comunismo surge no século XIX, formulado principalmente por Karl Marx e Friedrich Engels, como uma teoria crítica ao capitalismo industrial nascente. Mais do que um projeto fechado de governo, trata-se de uma interpretação histórica sobre como as sociedades se organizam a partir das relações de produção.

Para Marx, a história humana é marcada pela luta entre classes. Senhores e escravos, nobres e servos, burguesia e proletariado. O comunismo apareceria como a etapa final desse processo, quando as contradições do capitalismo fossem superadas.

É importante frisar. O comunismo, na teoria clássica, não é apenas uma economia estatizada. Ele pressupõe o fim das classes sociais, a abolição da propriedade privada dos meios de produção e, talvez o ponto mais ignorado no debate público, o desaparecimento do Estado enquanto instrumento de dominação.

Trata-se de um horizonte histórico. Um ponto de chegada. Não de um manual administrativo pronto para ser aplicado.


Socialismo e a ideia de transição

Entre o capitalismo e o comunismo, Marx localiza uma fase intermediária. O socialismo. Nesse estágio, o Estado assume papel central. Cabe a ele organizar a economia, controlar os meios de produção e reduzir progressivamente as desigualdades herdadas do sistema capitalista.

O socialismo seria, portanto, uma transição. Uma ponte histórica destinada a criar as condições materiais e culturais para que o comunismo fosse possível. Educação universal, desenvolvimento tecnológico, redução da escassez e uma nova cultura política.

Na teoria, essa fase seria temporária. Na prática histórica, ela acabou se tornando permanente.


O que foi implementado na prática

Quando alguém diz que o comunismo já existiu, normalmente está pensando em imagens bem específicas. A União Soviética, o muro de Berlim, Fidel em Cuba, Mao na China. Esses símbolos viraram atalhos mentais.

O problema é que símbolo não é conceito.

Na prática, o que esses países implantaram foram Estados socialistas fortemente centralizados. Economia planificada, partido único, controle estatal dos meios de produção e um Estado que não só não desapareceu como se tornou onipresente.

Aqui cabe um paralelo cultural importante. É como chamar toda música brasileira de samba. Ajuda pouco e confunde muito. Bossa nova, tropicalismo, manguebeat e sertanejo compartilham elementos, mas não são a mesma coisa. Comunismo e socialismo sofrem desse mesmo achatamento no debate público.

Nenhuma dessas experiências aboliu o Estado. Nenhuma eliminou completamente as classes sociais. Nenhuma chegou perto daquela sociedade autogerida descrita nos textos clássicos de Marx.

Do ponto de vista conceitual, isso importa. Porque chamar tudo de comunismo é um atalho retórico, não uma análise honesta.


Contradições, limites e justificativas históricas

Por que o comunismo, como formulado teoricamente, nunca foi alcançado? Há algumas explicações recorrentes.

A primeira é política. A concentração de poder em partidos únicos gerou novas elites burocráticas. A promessa de dissolução do poder acabou substituída pela sua cristalização.

A segunda é econômica. Muitos desses países partiram de condições materiais precárias, com baixa industrialização e forte pressão externa. Escassez gera controle. E controle fortalece o Estado.

A terceira é histórica e geopolítica. Guerras, embargos, disputas ideológicas e a lógica da Guerra Fria empurraram esses regimes para um estado permanente de defesa. Um Estado em alerta raramente abre mão de poder.

No fim das contas, o meio engoliu o fim. A transição virou destino final.


Impacto cultural, político e simbólico

No Brasil, o comunismo nunca foi um projeto real de poder, mas sempre foi um fantasma eficiente. Desde a Guerra Fria, ele funciona como ameaça difusa, acionada sempre que reformas sociais entram em pauta.

Getúlio foi acusado de comunista. Jango também. Lula, Dilma, artistas, professores, jornalistas. A lista é longa. O curioso é que, enquanto o rótulo circula livremente, o conceito segue mal compreendido.

Culturalmente, isso cria um curto-circuito. A palavra comunismo passa a significar qualquer coisa que envolva Estado, política pública ou redistribuição. Como se SUS, universidade pública ou política cultural fossem etapas rumo a uma revolução soviética tropical.

Esse esvaziamento simbólico explica por que o debate é tão apaixonado e tão pouco produtivo. Discutem-se medos, não ideias.


Síntese e legado

Para entender o cerne da questão, com pouco esforço, três pontos resolvem.

Primeiro. O comunismo, como sociedade sem Estado e sem classes, nunca existiu na prática.

Segundo. O que existiu foram Estados socialistas, com alto grau de centralização política e econômica.

Terceiro. A distância entre teoria e realidade é o coração da controvérsia e explica por que o tema segue provocando reações tão viscerais.


Então, afinal, o comunismo já foi implementado em algum país?

Se a gente estiver falando da teoria clássica, aquela sociedade sem Estado, sem classes e sem exploração, a resposta continua sendo não. Ela nunca existiu.

Se estivermos falando de experiências históricas inspiradas no marxismo, a resposta é sim. Mas com todas as contradições, desvios e consequências que a história já mostrou.

O problema não é discordar do comunismo. O problema é combatê-lo sem saber exatamente o que ele é. Transformar conceitos complexos em palavrões empobrece o debate e infantiliza a política.

Talvez o primeiro passo não seja escolher um lado, mas fazer uma pergunta mais honesta. Do que exatamente estamos falando quando falamos em comunismo?

Se essa pergunta incomoda, ela já cumpriu seu papel.

Sal

Jornalista, blogueiro, letrista, já fui cantor em uma banda de rock, fotógrafo, fã de música, quadrinhos e cinema...

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1 Resultado

  1. CASSIANO NOGUEIRA disse:

    Infelizmente, o discurso humano é, frequentemente, conduzido pela vaidade e pelo orgulho. Muitas pessoas querem somente confirmar seus pontos de vista enviesados.

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