Quando matar um cachorro vira “só mais uma notícia”, algo já deu muito errado
O caso do cão Orelha expõe a barbárie, a impunidade e o limite moral de uma sociedade em alerta

A morte do cão Orelha não foi só mais uma manchete sobre maus-tratos a animais. Foi daquelas histórias que chegam e nos destroem e ficam ecoando na cabeça. Talvez porque Orelha não fosse “só um cachorro”. Talvez porque o que fizeram com ele diga mais sobre nós do que gostaríamos de admitir.
Eu amo cachorros. Eu não conheci o Orelha pessoalmente. Nunca fiz um carinho nele, nunca joguei um pedaço de pão ou parei pra trocar aquele olhar silencioso que só cachorro sabe oferecer. Mesmo assim, a morte dele me atravessou como se fosse alguém do meu convívio. Porque Orelha era um símbolo. E símbolos, quando são destruídos, deixam rastros.
O cão comunitário como ideia de civilização
Orelha era um cão comunitário na Praia Brava, em Florianópolis-SC. Um desses raros pactos silenciosos que ainda sobrevivem nas cidades. Ninguém é dono, mas todo mundo cuida. Ele circula livre, confia, pertence.
É quase um acordo civilizatório não assinado, mas respeitado.
Esse tipo de convivência diz muito sobre um lugar. Diz que ali ainda existe espaço para afeto gratuito. Para responsabilidade coletiva. Para empatia que não cobra nada em troca. Orelha era parte da paisagem afetiva. Como o mar. Como o vento no fim da tarde.
A emboscada e a quebra do pacto
E foi justamente essa confiança que o matou.
Quatro adolescentes atraíram Orelha e o espancaram até a morte. Não foi acidente. Não foi impulso. Não foi brincadeira. Foi uma escolha. Um ato consciente de violência contra um ser indefeso que não oferecia ameaça alguma.
Aqui, o que se rompe não é só um corpo. É o pacto. Quando a confiança vira armadilha, algo essencial se perde. Não apenas para o animal, mas para todos nós.
Violência não nasce do nada
Costuma-se dizer que são “casos isolados”. Nunca são. Violência não brota do chão como erva daninha. Ela é cultivada. Regada pela ausência de limites, pela certeza da impunidade, pela ideia de que tudo pode porque nada acontece.
Quando jovens são capazes de tamanha crueldade, o problema é maior do que eles. É social. É moral. É estrutural. É o retrato de uma formação frouxa, onde privilégio se confunde com permissão e consequência vira exceção.
O alerta que ninguém deveria ignorar
Eu vi muitos passarem pano para o fato, na tentativa de justificar o indefensável. Matar um cachorro já é condenável. Matar um cachorro dessa forma não é sinal de alerta. Quem naturaliza a violência contra um animal aprende cedo a desumanizar. Aprende que dor alheia não importa. Aprende que força vale mais que empatia.
Não é exagero dizer isso. É constatação histórica, psicológica e social. Toda sociedade que flerta com a crueldade paga um preço alto depois.
Orelha não morreu só por agressão.
Morreu porque alguém achou que podia matá-lo.
Estado, lei e responsabilidade
Por isso esse caso não pode ser abafado, relativizado ou esquecido depois de alguns dias de indignação nas redes. Não basta revolta. É preciso justiça. É preciso responsabilização. É preciso que o Estado diga, sem rodeios, que isso é crime e que crime tem consequência.
Não se trata de vingança. Trata-se de limite.
Sem limite, a barbárie deixa de ser exceção e vira método.
O silêncio também escolhe lado
Orelha não tem mais voz.
Mas a nossa ainda existe.
Falar sobre isso não é exagero. É dever. Porque uma sociedade que fecha os olhos para a crueldade não acorda melhor no dia seguinte. Acorda mais fria. Mais bruta. Mais perigosa.
Eu me recuso a tratar isso como algo normal.
Um teste que nos inclui
Atitudes como essa não podem passar impunes. Não por clamor emocional, mas por responsabilidade civilizatória. Sem resposta, a violência se replica. Sem consequência, a crueldade se sente autorizada.
Justiça por Orelha não é slogan.
É um teste de civilização.
E esse teste não é só das autoridades.
É nosso também.
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