Novo single de Humberto Gessinger, “Janeiro 26”, celebra gerações
Confesso uma coisa logo de saída: poucas sensações são tão boas quanto perceber que um artista que nos acompanha há décadas continua capaz de nos tocar. Foi exatamente isso que senti ao ouvir “Janeiro 26”, o novo single de Humberto Gessinger. Gostei da música, gostei da canção, gostei da atmosfera. E gostei, principalmente, da verdade que escorre pelos versos como quem não pede licença para emocionar. Não precisa, né?

O refrão já chega com aquele abraço apertado que só a música sabe dar: “Tu vens, eu vô / amor maior não há.” Não é apenas uma frase bonita. É daquelas que parecem nascer prontas, carregadas de vida. E tem ainda a brincadeira dele ser avô e ir.
“Janeiro 26” é uma homenagem ao neto Folke, nascido em 26 de janeiro de 2026. O nome carrega as raízes suecas do pai e ajuda a ampliar esse jogo delicado entre geografia e sentimento que a canção propõe. Uma música sobre nascimento que também fala de continuidade. Sobre o tempo que passa, mas também sobre o amor que fica.
O lançamento acontece justamente no aniversário de Clara, filha de Gessinger, musa inspiradora de Fevereiro 13 e também do clássico Parabólica, lá de 1992. E olha que bonito perceber isso: três músicas que funcionam quase como fotografias afetivas de uma mesma família.
“Parabólica”, “Fevereiro 13” e agora “Janeiro 26”.
Pai, filha e neto.
Três gerações atravessadas pela música.
A ideia da composição surgiu no instante em que ele soube que seria avô. E dá pra sentir essa urgência emocional na letra, que constrói paralelos entre Brasil e Suécia, passado e futuro, experiência e descoberta. Quando ele canta que “o amor mais puro é o que nos move”, não soa como filosofia barata. Soa como alguém que entendeu uma coisa essencial da vida.
Musicalmente, chama atenção o caráter quase artesanal da gravação. Gessinger tocou praticamente tudo: baixo de oito cordas, violão, guitarra e teclado. Na bateria, a companhia precisa de Luke Faro. A faixa foi registrada no Estúdio Soma, em Porto Alegre, com produção do próprio artista e coprodução de Protásio Jr., e chega ao público pela Deckdisc.
Mas ouvir “Janeiro 26” também provoca uma reflexão maior.
Como é bom ver Humberto Gessinger ainda em plena atividade.
E mais do que ativo: relevante.
Desde os tempos do Engenheiros do Hawaii até sua carreira solo, ele sempre foi um dos nomes fundamentais para o desenho do pop rock nacional. Um compositor que ajudou a sofisticar o gênero sem afastá-lo do grande público. Letras inteligentes sem perder comunicação. Pensamento sem perder melodia.
Não é pouca coisa.
Num cenário em que tantas carreiras se acomodam no próprio passado, Gessinger parece escolher outro caminho. Continua produzindo boas músicas, boas canções, ideias que dialogam com o presente sem negar a própria história.
Isso, pra mim, é sinal de grandeza artística.
“Janeiro 26” talvez seja uma de suas canções mais ternas. Não pela grandiloquência, mas pela delicadeza. Pela maturidade de quem entende que, às vezes, a maior revolução é simplesmente reconhecer o amor.
Saí da audição com a sensação de ter aberto um álbum de família que, curiosamente, também fala um pouco de todos nós. Porque, no fundo, músicas assim nos lembram do que realmente importa.
E que felicidade é poder dizer isso: ainda bem que temos Humberto Gessinger compondo, gravando, pensando música e oferecendo ao cancioneiro brasileiro obras sensíveis e necessárias.
Que venham os próximos capítulos.
Eu já estou na escuta.

Impacto e legado
Mais do que um lançamento, “Janeiro 26” reforça a permanência de um artista que atravessa gerações sem perder densidade criativa. Ao transformar um acontecimento íntimo em arte compartilhada, Gessinger reafirma sua vocação para escrever canções que resistem ao tempo.
E talvez seja justamente essa a marca dos grandes compositores: falar do particular e, ainda assim, alcançar o universal.
Se você ainda não ouviu, recomendo com entusiasmo. Não apenas pela beleza da música, mas pelo que ela representa. Um artista experiente, sensível e ainda inquieto o suficiente para continuar criando.
Num mundo barulhento, canções assim são quase um respiro.
E como faz falta respirar boa música.
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