Tuany: entre a delicadeza da MPB e a fúria do Rock

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Confesso uma coisa.
Quando começo uma conversa com um artista independente, eu nunca sei exatamente o que vai acontecer. Às vezes vem técnica. Às vezes discurso pronto. Às vezes autopromoção. Com a Tuany, veio verdade.

Nos conectamos remotamente, cada um na sua tela, mas a sensação era de sala compartilhada. Desde os primeiros minutos ficou claro que ali havia algo que não cabe em rótulo fácil. MPB? Rock? Indie? Talvez tudo isso. Talvez nada disso. O que existe, de fato, é uma artista tentando entender o próprio tempo através do som. E isso, para mim, já diz muito.


Identidade não se inventa, se constrói

Tuany não parece interessada em ocupar um espaço já pronto. Ela quer construir o dela. E isso é mais difícil.

Durante o papo, ela falou sobre a importância de assumir suas referências sem se tornar refém delas. Em determinado momento, disse algo que me ficou ecoando: “Eu não quero escolher entre ser delicada ou ser intensa. Eu sou as duas coisas.”

Essa frase explica boa parte do que escuto na música dela. Há suavidade nas melodias, mas existe tensão na entrega. Existe silêncio, mas também existe ruído. É como se cada canção fosse um território em disputa entre fragilidade e força. E talvez seja exatamente aí que mora a identidade dela.

por Piero Lionardi

MPB e Rock: fronteira ou ponte?

Existe uma falsa ideia de que MPB é introspecção e rock é explosão. Como se um pedisse silêncio e o outro gritasse. Tuany parece ignorar essa divisão. Ela comentou que cresceu ouvindo de tudo. Que nunca se sentiu confortável em encaixar seu som em uma única prateleira. E foi direta: “Se a música for honesta, o gênero vira detalhe.”

Essa fala é importante. Porque revela uma artista mais preocupada com coerência do que com estratégia de mercado. E isso, hoje, é quase um ato de resistência.

O resultado é uma sonoridade que transita. Em alguns momentos, a voz conduz como quem conta um segredo. Em outros, o instrumental cresce e empurra a narrativa para frente, como se dissesse: agora é hora de enfrentar.


Vulnerabilidade como força

Uma das partes mais interessantes da conversa foi quando falamos sobre exposição. Sobre o medo de se mostrar demais. Ela foi transparente: “Tem música que nasce de um lugar muito íntimo. Dá medo lançar. Mas eu entendi que se eu sinto, alguém também vai sentir.”

Essa consciência muda tudo. Porque a vulnerabilidade deixa de ser fraqueza e passa a ser ponte. Não é sobre drama. Não é sobre performance de dor. É sobre reconhecer o próprio sentimento como matéria-prima artística. Isso conecta.


Processo criativo: menos fórmula, mais verdade

Perguntei sobre método. Sobre como as músicas nascem. A resposta veio sem romantização: “Às vezes começa com uma frase solta. Às vezes com um incômodo que não passa.”

Gosto dessa imagem do incômodo. Porque a arte, muitas vezes, nasce justamente do que não encontra resposta imediata. A música vira tentativa de entendimento. Ela também destacou a importância de preservar a essência da ideia inicial, mesmo quando a produção cresce. Não deixar que a técnica apague o sentimento original.

Esse equilíbrio entre cuidado estético e verdade emocional é um dos pontos mais fortes da trajetória dela até aqui.


O lugar do artista independente

Falamos também sobre os desafios de produzir música fora das grandes estruturas. Algoritmos, visibilidade, constância, comparação. Tuany foi lúcida: “Eu prefiro crescer no meu tempo do que me perder tentando caber em tudo.”

Essa frase resume uma postura. E postura é algo raro. Ser artista independente hoje exige mais do que talento. Exige clareza de propósito. E, sobretudo, paciência estratégica.


Impacto e Caminho

O que me chama atenção na Tuany não é apenas a sonoridade. É a consciência do que está fazendo. Ela não está tentando ser tendência. Está tentando ser coerente.

E isso costuma durar mais.

Existe uma geração de artistas que entendeu que identidade vale mais que viralização. Que construção vale mais que explosão momentânea. Tuany me parece parte dessa geração. Ela caminha sem alarde. Mas caminha firme.


Quando a música encontra verdade

No fim da conversa, fiquei com a sensação de que tinha falado com alguém que entende a música como extensão de si mesma.

Não como vitrine.
Não como personagem.
Mas como linguagem.

Tuany representa essa artista que não escolhe entre delicadeza e intensidade. Ela habita as duas. E talvez seja justamente isso que torna o som dela tão interessante. A pergunta que fica é simples e estratégica: Estamos preparados para ouvir artistas que não querem caber em moldes?

Porque, quando a gente escuta com atenção, percebe que é ali, nas bordas, que nasce o que realmente importa.


Referências

Entrevista concedida por Tuany ao canal Pitadas do Sal

Sal

Jornalista, blogueiro, letrista, já fui cantor em uma banda de rock, fotógrafo, fã de música, quadrinhos e cinema...

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