Venezuela, Trump e a ilusão do herói global
Quando a força vira argumento e o direito vira obstáculo
Eu não escrevo este texto para defender Nicolás Maduro. Não escrevo para relativizar autoritarismo, crise humanitária ou a tragédia política venezuelana. Escrevo porque naturalizar uma ação militar estrangeira como se fosse justiça é um atalho perigoso. E porque o que o governo dos Estados Unidos, sob Donald Trump, fez contra a Venezuela não é um detalhe diplomático. É um gesto simbólico, ruidoso e profundamente revelador de uma velha lógica imperial que insiste em se apresentar como virtude.
Há décadas, Washington se vê como árbitro do mundo. Trump apenas tirou a luva. Disse em voz alta o que sempre esteve implícito: a América do Sul como quintal, a soberania alheia como inconveniente, o direito internacional como ferramenta opcional. Quando convém, usa-se. Quando atrapalha, rasga-se.

Contextualização histórica
Desde 1945, depois de duas guerras mundiais e milhões de mortos, a comunidade internacional estabeleceu um pacto mínimo de civilidade. A Carta das Nações Unidas proibiu o uso da força entre Estados, salvo duas exceções muito claras: legítima defesa após ataque armado ou autorização expressa do Conselho de Segurança da ONU.
Não é um detalhe técnico. É o pilar central da ordem internacional moderna. Sem isso, o mundo volta à lei do mais forte. E quando um país decide ignorar essa regra, o problema deixa de ser o alvo imediato e passa a ser o precedente que se cria.
No caso da Venezuela, nenhuma das exceções se aplica. Não houve ataque prévio aos Estados Unidos. Não houve autorização da ONU. Mesmo assim, houve ação militar, captura de chefe de Estado e um discurso que tenta vender o ato como libertação.
A narrativa do herói
Esse roteiro não é novo. Os Estados Unidos já se apresentaram como salvadores muitas vezes. O problema é que, quando a poeira baixa, o saldo costuma ser desastroso.
Iraque, 2003. A justificativa eram armas de destruição em massa que nunca existiram. O resultado foi a implosão do Estado, centenas de milhares de mortos e o surgimento do Estado Islâmico.
Líbia, 2011. A promessa era proteger civis. O país virou um mosaico de milícias, tráfico de armas e instabilidade permanente.
Afeganistão, duas décadas de ocupação. Saída apressada, retorno do Talibã e uma população deixada à própria sorte.
Na América Latina, a lista é ainda mais longa: Guatemala em 1954, Brasil em 1964, Chile em 1973, Nicarágua, Panamá. Sempre a mesma lógica. Sempre o mesmo discurso. Sempre interesses estratégicos e econômicos embalados como defesa da democracia.
O interesse por trás do discurso
A Venezuela não é apenas uma crise política. É um território com as maiores reservas de petróleo do mundo, posição estratégica no Caribe e influência crescente de China e Rússia na região. Nada disso é irrelevante.
Trump tentou justificar a ação com o combate ao narcotráfico, sem nunca ter apresentado uma única prova. Especialistas desmontaram essa tese com facilidade. A Venezuela não é protagonista central no problema das drogas que atinge os EUA. O argumento soa mais como cortina de fumaça do que como causa real.
Quando interesses econômicos e geopolíticos entram em cena, a retórica humanitária costuma servir como verniz moral. Fica bonito no discurso. Funciona para consumo interno. Mas não resiste à análise histórica.

O precedente perigoso
Aqui está o ponto central. O problema não é se Maduro merece cair. Regimes autoritários caem. A história está cheia disso. A questão é quem decide quando, como e com quais regras.
Se aceitarmos que uma potência pode intervir militarmente em outro país porque considera seu governo ilegítimo, abrimos uma porta sem volta. Hoje é a Venezuela. Amanhã pode ser qualquer outro país do Sul Global que contrarie interesses estratégicos.
Quando a soberania vira obstáculo, a violência vira política externa. E isso não gera democracia. Gera instabilidade, medo e submissão.
A crítica que vem de dentro
Não são apenas vozes latino-americanas que apontam o problema. Parte expressiva da imprensa e da academia nos próprios Estados Unidos classificou a ação como ilegal e imprudente. Há críticas à falta de base jurídica, à ausência de autorização do Congresso americano e ao risco de escalada regional.
Isso desmonta a ideia de que questionar a intervenção é antiamericanismo. Não é. É defesa de regras mínimas de convivência internacional.
A história se repete
É possível, e necessário, criticar Maduro. É legítimo condenar violações de direitos humanos. O que não é aceitável é celebrar a força bruta como solução, ainda mais quando ela vem travestida de heroísmo.
Se o direito internacional não vale para todos, não vale para ninguém. Quando quem se apresenta como guardião da ordem global decide rasgar as regras, o recado é claro: a lei só serve quando convém.
Pensar assim não é ideologia. É memória histórica. E, num mundo que parece insistir em repetir os mesmos erros, lembrar talvez seja o gesto mais revolucionário que nos resta.
Impacto e legado
O que acontece na Venezuela não diz respeito apenas aos venezuelanos. Diz respeito à América Latina inteira. Diz respeito à ideia de soberania, de limite, de regra. Normalizar esse tipo de ação é aceitar que o futuro será decidido na base da força, não do direito.
E a história já mostrou onde isso costuma dar.

Referências e leituras
New York Times, CNN Brasil, Infomoney, ICL Notícias, Carta das Nações Unidas, análises de especialistas em Relações Internacionais.
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