Heróis do culto: quando o pensamento entra no piloto automático

Tem dias em que o Brasil parece um experimento social sem supervisão. Eu acordo, passo o café e, antes do primeiro gole, já estou cercado por frases que não pedem conversa, pedem adesão. “Mídia golpista”. “E o PT?”. “Vacina mata”. Não é debate. É um loop infinito. E loop, quando se repete o suficiente, vira verdade emocional.

A política brasileira deixou de ser só disputa de ideias. Virou linguagem própria. Um código. Um sistema de reconhecimento entre iguais. E, no centro disso tudo, o bolsonarismo não funciona apenas como corrente política. Funciona como um tipo de fé improvisada, onde repetir vale mais do que entender. O curioso é que isso não é exatamente novo. O psiquiatra Robert Jay Lifton já descrevia esse mecanismo lá atrás. Em ambientes de culto ou lideranças muito fechadas, surgem os clichês de pensamento. Frases prontas que não explicam nada, mas encerram qualquer discussão.

É o botão invisível do “não pensar”.

“Globo Lixo”, “Lula Ladrão”, “Vivemos numa ditadura”, “O Brasil vai virar a Venezuela”, “Nossa bandeira nunca será vermelha”, “Ideologia de gênero”. Não é debate, é eco. E eco não conversa, só repete. No começo, soa estranho. Depois, familiar. Quando você percebe, já está repetindo sem nem lembrar de onde veio. Esse é o verdadeiro culto ao feudo verbal. Um território onde palavras não servem para comunicar, mas para delimitar quem está dentro e quem está fora. Questionar vira traição. Dúvida vira fraqueza. E não é sobre falta de inteligência. É sobre conforto.

Pensar exige esforço. Rever opinião machuca. Admitir erro, então, nem se fala. É mais fácil abraçar o mantra do que encarar a frustração de ter sido enganado. O cérebro economiza energia. E, nesse processo, desliga o senso crítico sem fazer barulho. O problema é o preço disso. Quando o pensamento automático assume o controle, a lógica começa a escorregar. Pequenas incoerências deixam de incomodar. Contradições passam batido. E, aos poucos, o absurdo ganha cara de rotina.

A pandemia escancarou esse processo. Mais de 700 mil mortes no Brasil. Um número que deveria interromper qualquer narrativa. Mas não interrompeu. Porque, no meio do caos, a repetição seguia firme. Remédios sem eficácia eram defendidos como solução. Vacinas eram tratadas como ameaça. E qualquer tentativa de ponderação era atropelada por respostas prontas. É o “stop thinking” em tempo real. Você apresenta dado, estudo, evidência. Do outro lado, vem a frase automática, limpa, rápida, imune a qualquer atrito com a realidade. Fim de conversa.

E aqui mora um erro comum. Achar que isso se resolve no grito. Adivinha? Não resolve.

Chamar de ignorante, debochar, ridicularizar. Nada disso quebra o ciclo. Pelo contrário. Reforça. Quanto mais confronto direto, mais o grupo se fecha. É o reflexo de defesa funcionando a todo vapor. E vale lembrar: esse padrão não nasceu aqui. A lógica do “nós contra eles”, da desconfiança permanente e da realidade moldada pela repetição ganhou o mundo. Donald Trump é um exemplo claro disso, com desfecho simbólico na Invasão do Capitólio. Não foi um surto isolado. Foi o resultado previsível de anos de narrativa martelada. O roteiro se repete. Muda o idioma, muda o cenário, mas a engrenagem é a mesma. E quando o líder sai de cena, muita gente acredita que o fenômeno acaba. Quer Spoiler? Não acaba.

Culto não depende só da figura central. Depende da estrutura emocional construída ao redor dela. E essa estrutura continua ativa. O que era liderança vira símbolo. O que era governo vira narrativa. O que era poder vira martírio. O movimento pós-queda não é o fim. É adaptação. As redes fechadas assumem o protagonismo. Grupos de WhatsApp, Telegram, bolhas onde a checagem não entra e a repetição reina absoluta. Vídeos duvidosos, prints fora de contexto, especialistas improvisados. Tudo circulando com velocidade maior do que qualquer tentativa de correção.

E aqui entra um fator que acelera tudo: a lógica das redes. Elas não premiam verdade. Premiam engajamento. Conteúdo simples, emocional e polarizado viaja mais rápido. Uma frase de efeito vence um estudo. Um meme engole um gráfico (a não ser que seja um power-point da Globo News, com revisão do Deltan Dallagnol). E uma crença confortável sempre chega antes de uma explicação complexa. Não é justo. Mas é o jogo que está sendo jogado.

Diante disso, surge a pergunta inevitável. Dá para fazer alguma coisa?
Dá. Mas não do jeito que muita gente imagina.
Esquece a ideia de converter multidões no debate público. Isso é ilusão. O caminho real é mais silencioso, mais lento e muito mais humano. O caminho é de conversas individuais. Sem plateia. Sem performance.

Perguntas simples, mas honestas:
De onde veio essa informação?
Por que você acredita nisso?
O que faria você mudar de ideia?

Não é sobre vencer. É sobre abrir espaço. Porque dúvida, quando entra, não faz barulho. Mas trabalha. No fim das contas, o maior risco de qualquer culto não é o líder. É o hábito de não pensar. E esse hábito se instala devagar, no conforto das respostas prontas. Entre uma frase automática e outra, sempre existe um intervalo. Um segundo de silêncio antes da repetição. É ali que tudo pode mudar.

Num país que fala o tempo todo, talvez o gesto mais radical seja justamente esse: parar, por um instante, e pensar por conta própria.

Sal

Jornalista, blogueiro, letrista, já fui cantor em uma banda de rock, fotógrafo, fã de música, quadrinhos e cinema...

Você pode gostar...

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *