Rodrigo Santos revisita Nelson Motta em álbum que foge do óbvio
O ex-baixista do Barão Vermelho pegou 16 músicas ligadas à obra de um dos nomes mais importantes da música brasileira, chamou Chico Chico, Fernanda Abreu, Frejat, Lobão, Moska, Sandra de Sá, Paula Toller, Andy Summers e uma turma de convidados de diferentes gerações e decidiu fazer aquilo que costuma dar problema quando se mexe em música conhecida: mudar tudo sem perder a alma.
O resultado é um álbum tributo que merece ser ouvido menos como homenagem e mais como provocação, pois Rodrigo não parece interessado em colocar as músicas de Nelson Motta dentro de uma moldura bonita e pendurar na parede. Ele quer ver o que acontece quando elas saem para tomar um ar.

Rodrigo Santos e Nelson Motta: uma homenagem sem cerimônia
Disco tributo costuma ser um terreno perigoso. Às vezes você já sabe como o negócio foi planejado antes mesmo de ouvir a primeira faixa. Junta-se um grupo de artistas, escolhem-se algumas músicas conhecidas, grava-se tudo com aquele cuidado excessivo para não desagradar ninguém e pronto. Está entregue a homenagem.
Só que música não combina muito com esse tipo de segurança. Quem conhece Rodrigo Santos dos tempos de Barão Vermelho e das muitas horas de estrada sabe que ele não construiu sua trajetória em cima do caminho mais confortável. Então seria estranho imaginar que, justamente diante da obra de Nelson Motta, ele resolveria jogar no piloto automático. Não resolveu.
A ideia era mergulhar no repertório de Nelson, entender aquelas canções e descobrir o que ainda havia ali para ser explorado. E foi assim que um projeto pensado para celebrar os 60 anos de carreira de Nelson Motta e os 40 anos de carreira do próprio Rodrigo, acabou ganhando outra cara. Em vez de olhar apenas para o passado, Rodrigo decidiu conversar com ele.
O encontro na casa de Nelson Motta
A história fica ainda mais interessante quando a gente chega ao começo do projeto. Rodrigo foi até a casa de Nelson Motta para apresentar a ideia. O plano inicial era mostrar algumas músicas e explicar o que pretendia fazer. Só que músico empolgado raramente respeita o roteiro…
No home studio, Rodrigo começou a experimentar os arranjos. Pegou violão, procurou tons, alterou andamentos e foi testando possibilidades. Quando percebeu, já tinha trabalhado 14 músicas. O que deveria ser uma primeira apresentação virou quase uma demonstração de que o disco já existia dentro da cabeça daquele sujeito.
Nelson ouviu.
E tomou aquele susto bom de quem percebe que uma música que conhece há décadas pode aparecer diante dele com outra roupa. Um bolero poderia virar reggae. Um pop rock poderia ganhar velocidade. Uma canção delicada poderia receber peso de guitarra. A questão não era simplesmente mudar por mudar. Era descobrir o que aconteceria com aquelas músicas quando Rodrigo as colocasse no seu próprio território.

Perigosa ganha Chico Chico e Andy Summers
Perigosa é um dos melhores exemplos dessa proposta.
Rodrigo divide a música com Chico Chico e leva a canção para um lugar mais sujo, mais pulsante, com aquela energia de quem resolveu abrir a janela e deixar o ar entrar. E ainda tem Andy Summers. Sim, o guitarrista do The Police.
A história por trás da participação parece uma dessas maluquices que só acontecem quando músicos estão juntos e o relógio não está ajudando. Andy estava hospedado em Copacabana e acabou indo para o estúdio de Nani Dias, após pressão de Rodrigo. Os dois são amigos de décadas. A janela de tempo era curta. Rodrigo foi mostrando os acordes, apontando o braço da guitarra e a coisa foi tomando forma ali mesmo. Uma jam de cerca de trinta minutos.
Depois, risada no tapete. Pronto.
Está aí uma das características mais interessantes desse projeto: algumas das melhores histórias parecem ter nascido justamente quando ninguém tentou controlar demais o que estava acontecendo.
Dancin’ Days troca a pista pela rua
A mesma lógica aparece em Dancin’ Days.
O hino das pistas dos anos 1970 ganha aqui uma leitura em samba funk, com Fernanda Abreu e uma bateria de escola de samba empurrando a música para outro ambiente. E funciona porque existe uma ligação natural entre as duas coisas.
A pista e a rua sempre conversaram. O suingue também. A música ganha outra temperatura. Sai um pouco da discoteca, pisa na calçada e volta com poeira no sapato. É uma mudança de arranjo, claro. Mas é também uma mudança de perspectiva. Rodrigo parece perguntar o tempo inteiro: e se essa música não fosse exatamente aquilo que a memória guardou?
Um disco que atravessa gerações da música brasileira
O álbum fica ainda mais interessante quando a gente olha para os convidados.
Em Certas Coisas, Rodrigo divide os vocais com Moska e encontra uma leitura mais densa e dramática para a canção. Palestina, com Sandra de Sá, ganha uma interpretação de presença enorme. A voz dela não passa pela música de mansinho. Chega ocupando espaço. Luiz Caldas leva Tudo Azul para um rock baião cheio de personalidade. Léo Jaime aparece em Sereia, acrescentando uma elegância que combina com a faixa. Fernanda Takai participa de Coisas do Brasil. E Paula Toller entra em Como Uma Onda, uma daquelas músicas que já fazem parte da memória afetiva de várias gerações.
Esse encontro de artistas também ajuda a explicar a proposta do álbum. Não é apenas Rodrigo Santos revisitando Nelson Motta. É uma geração encontrando outra. É rock conversando com samba, pop encontrando funk, vozes diferentes entrando em canções que já atravessaram décadas. Quando isso funciona, a homenagem deixa de ser retrospectiva. Vira presente.

Nelson Motta também entrou na brincadeira
Existe outro detalhe que considero fundamental para entender o projeto. Nelson Motta não ficou sentado na arquibancada. Ele acompanhou o processo de perto e assumiu a direção musical. Ouviu as versões que Rodrigo enviava pelo Google Drive, acompanhou as mudanças, deu opiniões e viu sua obra ser desmontada e remontada.
Vai me dizer que isso não muda completamente a natureza de uma homenagem?
Porque existe uma diferença enorme entre preservar uma obra e congelá-la. Nelson parece ter entendido isso.
Ao permitir que Rodrigo mexesse nas músicas, ele também aceitou uma coisa essencial para qualquer obra que pretenda atravessar gerações: a possibilidade de ser reinterpretada.
Canção boa não precisa ser protegida de novas leituras.
Precisa sobreviver a elas.

O trabalho da Front e a construção do álbum
O projeto foi produzido pela Front, reunindo Nani Dias, Ricardo Palmeira e o próprio Rodrigo Santos. Grupo oitentista que retomou os trabalhos há alguns anos e tem feito um barulho bem bacana no pop rock brasileiro, com álbuns registrados em icônicos estúdios de gravação ao redor do mundo.
O processo do álbum em homenagem ao Nelson, começou em 2023 e desembocou em um álbum duplo com 16 faixas e participações que atravessam diferentes momentos da música brasileira. E esse detalhe importa porque ajuda a afastar uma ideia comum sobre discos tributo. Ele não parece ter sido feito para simplesmente preencher uma data comemorativa.
Existe trabalho de arranjo.
Existe pesquisa.
Existe risco.
E, principalmente, existe vontade de brincar com as músicas.
Não aquela brincadeira inconsequente de quem mexe numa canção só para chamar atenção. É uma brincadeira de músico. Daquelas que começam com um “e se?” e, algumas horas depois, podem terminar com uma gravação que ninguém tinha imaginado.
Rodrigo Santos não trata Nelson Motta como peça de museu
No fim das contas, é isso que mais me interessa nesse álbum. Rodrigo Santos não trata a obra de Nelson Motta como peça de museu. E ainda bem. Música brasileira não foi feita para ficar atrás de um vidro. Ela precisa de gente que mexa, erre, acerte, tente de novo, troque o andamento, mude o arranjo, coloque outra voz e veja até onde a canção consegue ir.
Quano a música realmente é boa, ela aguenta.
Às vezes, ela até agradece.
O projeto de Rodrigo tem justamente essa coragem. Em vez de repetir as versões que já conhecemos, ele pega as canções de Nelson Motta e coloca todas elas de volta na estrada. Algumas mudam bastante. Outras preservam mais da identidade original. Mas existe uma inquietação atravessando o álbum inteiro.
A pergunta é simples: o que ainda podemos descobrir numa música que achávamos conhecer tão bem?
É uma pergunta que vale muito mais do que uma homenagem protocolar. Porque uma boa homenagem não precisa dizer apenas “olha como isso foi importante”. Ela pode dizer: “olha como isso ainda está vivo”.
Nelson Motta escreveu músicas que atravessaram décadas. Rodrigo Santos resolveu colocá-las novamente em movimento. Eu gosto muito mais assim. Música boa, afinal, não pede silêncio reverente. Pede conversa.
E, se possível, um pouco de barulho.
Confira o papo que levei com Rodrigo Santos, em uma live especial do Pitadas do Sal, sobre este trabalho…
Fotos: Leo Aversa
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