Vivian Benford | Perigo e o outro lado do sucesso na música independente

Depois de 27 anos de carreira, a cantora continua reinventando clássicos, descobrindo músicas esquecidas e construindo uma trajetória longe da lógica dos grandes hits

“Mais de 18 anos de carreira e não tem nenhum sucesso. Se fosse eu, desistiria.”

Vivian Benford recebeu esse comentário nas redes sociais. A frase poderia ser apenas mais uma provocação perdida no meio da internet. Mas ela me fez pensar no que a gente chama de sucesso quando fala de música. Principalmente quando o artista não está no centro do mercado, não aparece toda semana nas playlists mais ouvidas e não tem uma máquina de divulgação trabalhando a favor. Vivian respondeu de um jeito que talvez explique melhor sua trajetória do que qualquer currículo:

“Eu não consigo desistir. E isso pra mim, cantar, é uma necessidade vital, assim como preciso respirar, preciso comer, preciso cantar.”

É uma resposta simples. E justamente por isso, difícil de rebater. Porque talvez exista uma ideia de sucesso na música, que ficou velha. Aquela em que tudo precisa resultar em um grande hit, números impressionantes, reconhecimento imediato e uma carreira construída em linha reta. A trajetória de Vivian aponta para outro lugar.

Ela canta há décadas. Experimenta. Regrava. Muda arranjos. Procura músicas que ficaram pelo caminho. Mistura referências. Vai atrás de uma canção conhecida não para repetir o que já foi feito, mas para descobrir o que ainda pode existir dentro dela.

Agora, com uma nova versão de “Perigo”, música de Nico Rezende e Paulinho Lima que ficou conhecida na voz de Zizi Possi, ela volta a fazer exatamente isso: pegar uma música que já carrega memória afetiva para muita gente e perguntar o que acontece quando ela passa por outro corpo, outra voz, outra época. Viviane nunca pareceu muito interessada em seguir a fórmula.


E se uma música conhecida não precisasse continuar sendo a mesma

Uma das coisas que mais me interessam no trabalho de Vivian é a relação dela com as versões. Regravar uma música conhecida parece, à primeira vista, uma tarefa simples. Você escolhe uma canção que já funciona, canta bem e pronto.

Só que não é assim. Uma boa versão precisa encontrar alguma coisa escondida na música original. Um detalhe. Uma possibilidade. Uma tensão que talvez estivesse ali desde o começo, esperando outra leitura. Foi assim que Vivian chegou a “Perigo”.

A música, composta por Nico Rezende e Paulinho Lima, ganhou notoriedade com Zizi Possi. Na memória de muita gente, ela está associada à interpretação da cantora e à sonoridade de uma determinada época. Vivian poderia simplesmente reproduzir essa lembrança. Preferiu mexer nela.

A versão ganha outra velocidade, outra pulsação. O que antes caminhava por um terreno mais próximo da balada ganha um corpo mais pop e dançante. A referência de Vivian passa também por outro lugar: Don’t Get Me Wrong, dos Pretenders.

É uma escolha que diz bastante sobre a proposta. Em vez de olhar apenas para a gravação original, ela procura outra música, outra banda, outra sensação para descobrir uma nova porta de entrada. É assim que uma versão deixa de ser cópia. E começa a ser interpretação.


O clássico não é uma peça de museu

Existe uma espécie de reverência excessiva às músicas conhecidas. A gente aprende a gostar de determinadas gravações e, depois de algum tempo, parece quase uma heresia imaginar que elas poderiam ser diferentes. Mas música não é peça de museu. Uma canção pode atravessar décadas porque permite novas leituras.

“I Will Always Love You”, por exemplo, ganhou uma dimensão completamente diferente quando Whitney Houston a gravou. “Tainted Love”, nas mãos do Soft Cell, passou por uma transformação que ajudou a torná-la uma referência da música pop. “Girls Just Want to Have Fun”, na voz de Cyndi Lauper, virou outra coisa.

A original continua existindo. A versão também. E uma não precisa matar a outra. Eu penso nisso toda vez que encontro uma releitura realmente boa. Há alguns anos, ouvi uma versão em tango de “Disritmia”, do Zeca Baleiro. A música, tão associada ao samba e à interpretação de Martinho da Vila, aparecia ali com outro corpo.

Não era melhor. Não era pior. Era outra possibilidade.

Também lembro de uma coisa que fiz no começo dos anos 1990, quando tocava em banda de covers. Em determinado momento, entrávamos em “Maior Abandonado”, do Barão Vermelho, depois de uma introdução de “Enter Sandman”, do Metallica. Hoje pode parecer uma maluquice. Na época, era divertido justamente porque ninguém estava tentando reproduzir o original com precisão cirúrgica. A graça estava em provocar o choque.

Uma música conhecida pode sobreviver justamente porque alguém se atreveu a mexer nela.


Vivian não escolhe apenas músicas conhecidas

Reduzir Vivian às regravações seria perder uma parte importante da história. Ela também demonstra interesse por músicas que não necessariamente chegaram ao imaginário popular com a mesma força. E isso revela uma característica que considero fundamental no trabalho dela: curiosidade.

Há artistas que parecem estar permanentemente procurando a próxima música que pode funcionar. Vivian parece procurar a música que vale a pena cantar. A diferença é enorme. Isso aparece, por exemplo, em “Abre Alas”, de Ivan Lins, que ela gravou com uma introdução inspirada em “Glory Box”, do Portishead. É uma combinação improvável no papel. Justamente por isso funciona como manifesto. Ivan Lins de um lado. Portishead do outro. Brasil e trip hop. Memória e estranhamento. Uma música não precisa abandonar sua identidade para receber uma nova camada. Pode ganhar outra.


Mais intérprete do que compositora. E daí?

Vivian se reconhece mais como intérprete do que como compositora. E eu gosto dessa afirmação porque ela vai contra uma ideia que se tornou quase obrigatória na música popular: a de que o artista completo precisa escrever aquilo que canta. Não precisa. Interpretar também é criar. O compositor entrega uma música. O intérprete decide o que fazer com ela. Escolhe a maneira de cantar, o timbre, a intenção, o andamento, a respiração, a emoção. Trabalha junto com músicos, produtores e arranjadores. Em muitos casos, muda completamente a percepção que temos daquela composição.

A autoria não desaparece. Ela muda de lugar. Uma música pode ser tecnicamente a mesma e emocionalmente outra. É por isso que uma grande intérprete não é apenas alguém que canta bem. É alguém capaz de fazer você acreditar que aquela música poderia ter sido escrita para ela. E existe um prazer especial quando isso acontece. Você conhece a canção há anos. De repente, alguém canta de outro jeito e você pensa: “Como é que eu nunca tinha ouvido isso assim?”


O DNA dos anos 80, sem viver de nostalgia

Os anos 1980 aparecem como uma espécie de matéria-prima na formação musical de Vivian. Mas existe uma diferença importante entre carregar uma influência e viver de nostalgia. Vivian não parece interessada em montar uma cápsula do tempo. O passado entra como repertório. Não como prisão. Isso também explica a facilidade com que referências aparentemente distantes convivem no trabalho dela. Rock, MPB, pop, música eletrônica, canções de outras épocas.

Não existe muita utilidade em colocar cada coisa numa gaveta. A música já não funciona assim há muito tempo. Penso eu que isso talvez seja uma das melhores coisas que um artista possa fazer com as próprias referências seja justamente misturá-las até que deixem de parecer referências e passem a soar como identidade.


A cena independente precisa de encontro

Existe outro aspecto da trajetória de Vivian que merece atenção: uma carreira independente não se constrói apenas com talento. Essa é uma daquelas verdades pouco românticas da música. É preciso gente. Gente para tocar. Produzir. Fotografar. Filmar. Divulgar. Compartilhar. Abrir uma porta. Apresentar alguém. Fazer uma indicação. A cena independente depende muito mais dessas conexões do que costumamos admitir.

Antes de existir uma playlist, existe alguém dizendo: “Escuta essa pessoa aqui.” Antes de um público aparecer, alguém precisa criar a primeira oportunidade. E isso vale especialmente para artistas que trabalham fora das grandes estruturas. A carreira vai sendo construída por camadas. Uma participação aqui. Um show ali. Uma colaboração acolá. Um convite. Uma música. Outra música. Quando você olha de longe, parece uma trajetória contínua. Quando vive aquilo, provavelmente parece uma coleção de pequenas tentativas.


São Paulo precisou acontecer aos poucos

A mudança para São Paulo também faz parte dessa construção. Só que uma mudança de cidade não resolve uma carreira por decreto. É preciso começar novamente em vários sentidos. Encontrar pessoas. Entender a cena. Construir público. Descobrir lugares. Recomeçar.

Para um artista independente, mudar de cidade pode ser tão importante quanto assustador. Não existe garantia. Existe possibilidade. Essa palavra, possibilidade” talvez seja a que melhor defina uma trajetória como a de Vivian. Possibilidade!


Liberdade também significa pagar a conta

Há uma romantização perigosa em torno da independência artística. Como se fazer tudo por conta própria significasse liberdade absoluta. Não significa. Significa também pagar gravação. Organizar produção. Encontrar dinheiro para clipe. Divulgar. Resolver problemas que, em uma estrutura maior, seriam responsabilidade de outras pessoas.

O novo “Perigo” nasceu também desse esforço. O projeto foi financiado por crowdfunding, construído com a participação direta de quem acredita no trabalho da cantora. Isso muda a relação entre artista e público. Não é apenas alguém apertando o botão “play”. É alguém ajudando a fazer a música existir. Pode parecer pequeno diante das grandes cifras da indústria. Não é. Para quem está fora do centro do mercado, cada música lançada é também uma pequena vitória logística. Isso precisa ser dito. Independência é liberdade, mas também dá trabalho pra cacete.


“Quem manda sou eu”

Talvez a maturidade tenha trazido para Vivian uma liberdade que não existia antes. Não aquela liberdade abstrata de fazer qualquer coisa. Uma liberdade mais concreta: saber melhor o que não quer fazer. Isso vale muito. Quando o artista passa anos tentando encontrar seu lugar, existe uma pressão constante para agradar. Ser mais acessível. Mais comercial. Mais parecido com alguém. Mais adequado ao momento. Depois de um tempo, talvez venha uma percepção diferente. Não preciso convencer todo mundo. Preciso saber por que estou fazendo isso.

Essa postura aparece também na maneira como Vivian participou da construção do clipe de “Perigo”. Existe ali uma estética que não depende de uma grande produção para funcionar. E isso também é maturidade. Entender o tamanho real do projeto e fazer o possível dentro dele. Não esperar condições ideais para começar.


O clipe de “Perigo” e a beleza do possível

Existe uma diferença enorme entre uma produção pobre e uma produção que conhece seus limites. A primeira tenta esconder o que não tem. A segunda transforma a limitação em linguagem.

O clipe de “Perigo” funciona melhor quando entendido dessa maneira. Ele não tenta fingir que Vivian está dentro de uma superprodução milionária. Não precisa. O que importa é criar uma imagem que acompanhe a música e reforce essa nova leitura. Existe uma honestidade nisso. Isso pra mim é muito mais interessante do que uma produção tecnicamente impecável, mas sem personalidade. Dito isso, eu achei o clipe impecável. Uma graça!


“Metamorfose ambulante”

Uma das coisas mais bonitas numa carreira longa é perceber que o artista não precisa permanecer igual para provar coerência. Aliás, pode ser justamente o contrário. Coerência não é repetir. É continuar reconhecível mesmo quando você muda.

Vivian pode sair de uma referência para outra, experimentar um arranjo diferente, buscar uma música esquecida, gravar um clássico ou se aproximar de uma sonoridade nova. O fio continua sendo a curiosidade.

Por isso a ideia de “metamorfose ambulante” cabe tão bem aqui. Não como uma frase pronta. Como prática. A carreira não precisa ser uma linha reta. Pode ser uma estrada cheia de curvas.


Então, afinal, Vivian é uma artista sem sucesso?

Voltemos àquela frase.

“Mais de 18 anos de carreira e não tem nenhum sucesso. Se fosse eu, desistiria.”

A provocação parte de uma definição bastante estreita de sucesso. Se sucesso for apenas ter um grande hit, entrar nas paradas, acumular milhões de reproduções e ser reconhecido na rua, então talvez muita gente esteja fracassando.

Mas essa régua não explica uma carreira como a de Vivian. Sucesso também pode ser continuar gravando depois de quase três décadas. Pode ser conseguir financiar um projeto com o apoio de quem acompanha seu trabalho. Pode ser mudar de cidade e construir outro público.

Pode ser encontrar uma música que quase ninguém lembra e fazer alguém descobri-la. Pode ser um compositor ouvir sua versão e gostar do caminho que você encontrou. Pode ser alguém escutar uma música na sua voz e, por alguns minutos, esquecer completamente quem gravou primeiro. E pode ser continuar querendo cantar.

A questão é que essa definição de sucesso não rende uma boa manchete. Não cabe direito em uma planilha. Não funciona tão bem para o algoritmo. Mas talvez funcione melhor para a vida.


Uma música pode carregar memória sem morar no passado

É impossível ouvir certas músicas sem voltar para algum lugar. Um quarto. Uma rua. Um carro. Uma festa. Uma pessoa. Uma época que já acabou. A música tem esse poder estranho de abrir portas que a memória parecia ter fechado.

Mas revisitar o passado não significa morar nele. É isso que me interessa nas versões de Vivian. Ela pega músicas que carregam memória e tenta descobrir o que ainda existe nelas. Não é nostalgia pela nostalgia. É investigação.

O que acontece com uma música quando muda a voz?
E quando muda o andamento?
E quando outra geração se apropria dela?
E quando uma canção conhecida deixa de ser lembrança e volta a ser presente?

Talvez seja por isso que “Perigo” faça tanto sentido dentro dessa trajetória.

A música já existia. A memória dela também. Mas Vivian não está tentando disputar espaço com Zizi Possi. Está procurando o próprio lugar dentro daquela canção. E é aí que voltamos à frase do começo.

“Preciso respirar, preciso comer, preciso cantar.”

Talvez o sucesso, para alguns artistas, seja exatamente isso. Não desistir daquilo que ainda faz sentido. Continuar procurando. Continuar errando. Continuar mudando. Continuar cantando. Depois de 27 anos, Vivian Benford não parece ter encontrado a fórmula do sucesso. Ela encontrou algo mais difícil. Uma maneira de continuar sendo artista sem precisar pedir licença para o algoritmo. Uma carreira não precisa ser gigantesca para ser importante. Às vezes, ela só precisa continuar viva. Ainda bem.

Sal

Jornalista, blogueiro, letrista, já fui cantor em uma banda de rock, fotógrafo, fã de música, quadrinhos e cinema...

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