Beatles no Brasil: quem realmente entendeu sua influência? 

Da Jovem Guarda ao Clube da Esquina, músicos brasileiros não apenas ouviram os Beatles. Alguns transformaram aquela influência em uma linguagem própria

Coloque um disco dos Beatles para tocar numa sala brasileira dos anos 1960 e imagine o estranhamento. As guitarras, as vozes, aquelas harmonias que pareciam chegar de outro planeta. Para uma geração de músicos, aquilo não era apenas música estrangeira. Era uma espécie de janela aberta de repente.

Eu gosto de pensar na história dos Beatles no Brasil a partir dessa imagem. Uma janela.

Porque a influência do quarteto inglês sobre a música brasileira foi enorme, mas não aconteceu de uma única maneira. Houve quem gravasse versões, quem imitasse sonoridades, quem incorporasse determinadas soluções e quem fosse muito além disso. O que me interessa, especialmente agora que vou conversar sobre o assunto na segunda Beatles do Pitadas, é justamente separar essas camadas.

Quem apenas admirou os Beatles? Quem os imitou? Quem os reinterpretou? E quem conseguiu transformar essa influência em linguagem própria?

A porta de entrada foi o rádio

Quando os Beatles explodiram internacionalmente, o Brasil já tinha uma juventude sedenta por guitarra, comportamento e novidade. A Jovem Guarda encontrou no rock britânico uma fonte poderosa de repertório e atitude.

Renato e Seus Blue Caps ocupam um lugar importante nessa história. O grupo gravou versões em português de músicas dos Beatles, entre elas “Menina Linda”, adaptação de “I Should Have Known Better”, e “Feche os Olhos”, versão de “All My Loving”. A própria Biblioteca Nacional destaca Renato e Seus Blue Caps entre os grupos brasileiros influenciados pelos Beatles e responsáveis por versões de suas músicas. (BNDigital)

Existe uma tentação, hoje, de olhar para essas gravações e enxergar apenas cópia. Eu acho essa leitura pobre. Muita gente na época conheceu primeiro as versões brasileiras do grupo, antes mesmo da dos próprios Beatles.

A indústria musical brasileira tinha outra dinâmica. O público queria cantar aquelas músicas, mas nem todo mundo tinha acesso fácil aos discos importados ou dominava o inglês. A versão em português funcionava como ponte. Renato e Seus Blue Caps ajudaram a construir essa ponte.

Só que uma ponte é diferente de uma casa. Ela permite atravessar. O passo seguinte é descobrir o que fazer do outro lado.

Renato & Seus Blue Caps

Caetano Veloso entendeu o jogo

Caetano Veloso nunca precisou soar como os Beatles para demonstrar que os conhecia profundamente. Seu relacionamento com a obra do grupo passava por outra chave: a liberdade de misturar referências e transformar aquilo que vinha de fora em matéria para uma criação brasileira.

Em 1975, Caetano lançou Qualquer Coisa, álbum cuja capa dialogava diretamente com Let It Be. O repertório também trazia três canções dos Beatles: “Eleanor Rigby”, “For No One” e “Lady Madonna”. No mesmo período, Jóia incluía uma releitura de “Help!”.

O detalhe que me interessa é que Caetano não estava tentando reproduzir os Beatles. Ele estava conversando com eles. Isso pode soar como uma diferença semântica, mas é uma diferença artística gigantesca.

A canção passa por sua voz, pelo violão, pela tradição brasileira e por toda a experiência tropicalista. Quando volta para o ouvinte, continua sendo Beatles, mas já carrega outra temperatura, outro clima, com outras camadas…

É assim que uma influência começa a deixar de ser influência pura e passa a virar linguagem.

Capa de álbum Qualquer Coisa, de Caetano Veloso, lançado em 1975

Rita Lee fez outra coisa

Rita Lee talvez seja um dos casos mais evidentes de devoção beatle no Brasil. Só que sua relação com o grupo também ultrapassou o terreno da idolatria.

Em 2001, ela lançou Aqui, Ali, em Qualquer Lugar, projeto dedicado ao repertório dos Beatles. O álbum reorganizou canções conhecidas dentro de uma sonoridade que aproximava bossa nova, pop e rock. Entre as músicas escolhidas estavam “A Hard Day’s Night”, “With a Little Help from My Friends”, “In My Life”, “Michelle” e “Lucy in the Sky with Diamonds”.

O interessante é perceber o movimento.

Rita não precisava provar que conhecia os Beatles. Ela precisava descobrir o que aquelas músicas poderiam significar dentro do universo dela.

Essa talvez seja uma das grandes lições deixadas pelo quarteto de Liverpool: uma boa influência não diminui a personalidade de quem recebe. Ela oferece ferramentas para que essa personalidade apareça com mais força.

Capa do álbum Aqui, Ali, em Qualquer Lugar, lançado por Rita Lee, em 2001

E então chegamos a Minas Gerais

Se eu tivesse de escolher um capítulo especialmente rico dessa história, seria o encontro entre os Beatles e o Clube da Esquina.

Lô Borges e Beto Guedes tiveram contato direto com o repertório do grupo ainda jovens. A linguagem beatle encontrou ali um terreno já preparado por bossa nova, jazz, música regional, psicodelia e uma tradição harmônica mineira muito particular.

O resultado não parece uma banda inglesa tocada em Minas Gerais. Parece Minas Gerais depois de ouvir os Beatles. “Para Lennon e McCartney”, composta por Lô Borges, Márcio Borges e Fernando Brant e gravada por Milton Nascimento em Milton, de 1970, talvez seja uma das melhores sínteses dessa relação. O próprio título coloca os compositores mineiros em conversa direta com os dois principais compositores dos Beatles.

Não há ali uma reverência servil. Há admiração, mas também afirmação de identidade. É como se os mineiros dissessem: ouvimos vocês. Aprendemos com vocês. Agora escutem o que estamos fazendo daqui. Essa é a parte da Beatlemania brasileira que mais me interessa.

Lô Borges e Beto Guedes

A influência que não aparece na ficha técnica

Os Beatles também deixaram uma marca menos evidente. Ela está na maneira como uma geração passou a pensar o estúdio, os arranjos, as possibilidades do álbum e a própria ideia de música popular. Depois dos Beatles, ficou mais difícil acreditar que música pop precisava obedecer a uma única fórmula. Isso teve consequências enormes.

No Brasil, a influência encontrou artistas que já estavam interessados em romper fronteiras. Tropicalistas, mineiros, roqueiros e compositores de diferentes gerações puderam usar aquela experiência inglesa como mais uma ferramenta dentro de um repertório muito maior. Por isso, acho pouco produtivo procurar apenas “quem parece com os Beatles”. Essa é a pergunta mais fácil. A pergunta difícil é outra: quem ouviu os Beatles e conseguiu deixar de parecer com eles?


E existe uma brasileira dentro dessa história

No meio de toda essa cartografia, há uma história que parece inventada por um roteirista.

Lizzie Bravo tinha 16 anos quando frequentava a porta dos estúdios Abbey Road, em Londres. Em 4 de fevereiro de 1968, Paul McCartney saiu do estúdio procurando alguém capaz de sustentar uma nota aguda. Lizzie e a inglesa Gayleen Pease foram convidadas para entrar e participar dos vocais de “Across the Universe”. (About The Beatles)

A participação de Lizzie pode ser ouvida na versão da música lançada originalmente no álbum beneficente No One’s Gonna Change Our World. Ela também aparece em outras edições do catálogo, enquanto a versão do álbum Let It Be não utiliza aqueles vocais. (The Paul McCartney project)

Uma adolescente brasileira foi a Londres para ficar perto dos Beatles e acabou gravando com eles. Claro que não é pouca coisa. É uma daquelas histórias que ajudam a mostrar que a Beatlemania brasileira não aconteceu apenas através dos discos que chegaram às lojas. Ela também foi feita de peregrinações, encontros improváveis, sonhos adolescentes e uma quantidade impressionante de gente disposta a atravessar o oceano para chegar mais perto daqueles quatro músicos.


Afinal, quem entendeu os Beatles?

Eu não colocaria essa resposta num ranking, pois para mim, o artista que melhor entendeu os Beatles não é necessariamente aquele que gravou mais músicas do grupo, que conhece mais histórias ou que consegue reproduzir melhor seus arranjos. É aquele que percebeu o princípio por trás da obra.

Os Beatles mostraram que era possível absorver referências, misturar linguagens, experimentar, errar, mudar de direção e transformar música popular em laboratório. Renato e Seus Blue Caps ajudaram a popularizar aquela linguagem no Brasil. Caetano Veloso mostrou que era possível dialogar com ela sem abandonar a identidade brasileira. Rita Lee levou o repertório para outra atmosfera. Lô Borges e o Clube da Esquina absorveram elementos da linguagem beatle e os fundiram a uma sonoridade que ninguém poderia confundir com Liverpool.

É aí que, para mim, mora a diferença entre fã e artista. O fã quer chegar perto do ídolo. O artista precisa descobrir o que fazer depois de chegar lá. Os Beatles vieram de Liverpool. A música brasileira fez o que sabe fazer melhor: ouviu, absorveu, misturou, deformou, devolveu. E, quando devolveu, já era outra coisa. Era nossa.


O legado que ficou

A influência dos Beatles na música brasileira não cabe numa coleção de versões. Ela está espalhada por décadas de gravações, arranjos, escolhas estéticas e maneiras de pensar a própria criação musical.

Por isso, a conversa que levo para a segunda Beatles do Pitadas do Sal não pretende descobrir quem é o maior beatlemaníaco brasileiro. Essa seria uma disputa divertida, mas limitada. Quero uma pergunta mais incômoda.

Quem realmente entendeu o que os Beatles estavam fazendo? E, principalmente, quem conseguiu pegar aquela faísca e acender outro fogo?


Sal

Jornalista, blogueiro, letrista, já fui cantor em uma banda de rock, fotógrafo, fã de música, quadrinhos e cinema...

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