Equilíbrio Distante: 30 anos do disco de Renato Russo que volta ao palco

Carlos Trilha, produtor e arranjador do álbum, leva pela primeira vez aos palcos o repertório que construiu ao lado de Renato Russo

No papo que eu tive com Carlos Trilha sobre Equilíbrio Distante, que ele co-produziu com Renato Russo, em determinado momento a conversa saiu completamente do lugar-comum que costuma cercar esse disco. Porque é fácil falar de Equilíbrio Distante como “o disco italiano do Renato Russo”. A frase explica, mas não conta quase nada.

O que me interessou foi descobrir como aquele álbum foi feito. Trilha estava lá. Participou da escolha das músicas, dos arranjos, das gravações, das discussões de estúdio, das mudanças de ideia. Viu Renato ouvir uma quantidade absurda de discos italianos, experimentar caminhos, voltar atrás, implicar com detalhes e insistir até conseguir o som que queria. E tem outra coisa: Renato não estava simplesmente fazendo um disco de versões. Ele estava procurando alguma coisa.

Lançado em dezembro de 1995, Equilíbrio Distante foi o segundo álbum solo de Renato Russo. São treze músicas, todas em italiano, escolhidas de um repertório que passava por nomes como Laura Pausini, Fiorella Mannoia, Aleandro Baldi, Paolo Vallesi, Raf, Renato Zero, Claudio Baglioni e Premiata Forneria Marconi. Para quem vinha da Legião Urbana, aquilo podia parecer uma guinada meio maluca. Eu acho que era mesmo. Por isso que o disco fica interessante.


Renato queria cantar aquelas músicas. O resto veio depois

Na conversa com Carlos Trilha, uma história me chamou atenção. Renato estava numa loja de discos, a Modern Sound, em Copacabana, quando ouviu Passerà. A música bateu nele. Não por causa de uma suposta “volta às raízes italianas”, pelo menos não apenas por isso. O que pegou foi a interpretação, a maneira como aquela voz carregava a canção. A partir daí começou uma busca.

Renato tinha comprado uma quantidade ENORME de discos italianos e passou semanas ouvindo aquilo tudo. Não sei se existe maneira de imaginar alguém fazendo isso hoje. Um por um. Procurando músicas. No fim, ficaram treze.

E aí aparece uma característica do Renato que às vezes fica escondida pela imagem do ídolo da Legião: ele era um sujeito muito mais obsessivo com música do que a gente costuma lembrar. Ele ouvia. Comparava. Cortava. Mudava. E não queria qualquer música.

Strani Amori, La Solitudine, Passerà, La Vita È Adesso, Come Fa Un’Onda, Dolcissima Maria. O repertório pode parecer distante daquilo que Renato vinha fazendo, mas basta prestar atenção nas letras para perceber que não existe uma ruptura tão grande assim. Solidão, amor, perda, desejo, fragilidade, esperança. Renato apenas mudou a língua.


O Renato que aparecia dentro do estúdio

Essa é a parte da história que mais me interessa. Trilha não descreve um Renato Russo passivo, chegando ao estúdio para colocar a voz em arranjos que outra pessoa preparou. Era o contrário. Renato tinha a palavra final. E prestava atenção em tudo.

A parceria entre os dois durou aproximadamente nove meses e foi construída em cima de uma dinâmica curiosa: Trilha era o produtor, arranjador, músico, técnico e interlocutor. Renato era quem dizia, no fim das contas, se aquilo estava certo ou não. Só que “certo” era uma coisa bastante específica para ele.

O disco foi sendo montado com músicos, programação eletrônica, sintetizadores, samples, violões, cordas, piano. Uma parte era gravada por gente tocando. Outra era construída dentro das “máquinas”. E muita coisa mudava no caminho.

Uma formação instrumental inicial tinha Paulinho Loureiro na guitarra, Eduardo Constant na bateria e Marcos Pessoa no baixo. Depois vieram outros músicos, outras ideias, outros arranjos. Artur Maia gravou baixos. Ricardinho Palmeira entrou com violões. Cláudio Jorge participou com uma pegada de bossa nova. Bruno Araújo, que fez shows com a Legião anteriormente também esteve presente… Renato também gravava coisas em casa e aparecia no estúdio com fitas prontas.

Era um disco sendo montado aos poucos, quase peça por peça. E tem uma história que resume bem essa maluquice técnica. Em La Vita È Adesso, aquele som que muita gente pode ouvir como um solo de guitarra não é uma guitarra. É uma programação de teclado, feita no KORG 01/W, trabalhada com pitch e delay. Ou seja: o ouvido jura que está escutando uma coisa. Mas não está.


O estranho é que funciona

Eu consigo entender quem estranhou Equilíbrio Distante quando ele saiu. Você tinha o vocalista da Legião Urbana cantando em italiano, interpretando canções românticas e trabalhando com uma sonoridade que passava longe da imagem mais óbvia que o público tinha construído dele. Era um convite para a crítica torcer o nariz. E muita gente torceu.

Mas há uma pergunta que eu acho mais interessante: por que Renato Russo teria que fazer outro disco igual ao anterior?

Ele já tinha provado o que tinha que provar com a Legião. Em Equilíbrio Distante, podia se dar ao luxo de errar. Ou tentar. A língua italiana também ajudava nisso. Renato não carregava sobre cada palavra o mesmo peso que existia quando cantava em português. Havia uma distância ali. E, paradoxalmente, essa distância parecia libertá-lo. Ele podia brincar com a voz. Podia experimentar. Podia simplesmente cantar.

É por isso que o disco tem uma identidade tão própria. Renato não tenta soar italiano. Ele faz aquelas músicas caberem dentro dele. É uma diferença enorme.


Agora o disco vai finalmente para o palco

E aqui chegamos ao motivo pelo qual estou escrevendo tudo isso.

No dia 14 de outubro, o Teatro Ademir Rosa, no Centro Integrado de Cultura (CIC), recebe “Carlos Trilha em Equilíbrio Distante 30 anos”.

Carlos Trilha vai levar esse repertório para o palco pela primeira vez, acompanhado por Claudia Bossle, Joe Cipriano e do
guitarrista Paulo Loureiro.
E, para mim, o mais foda é justamente quem está fazendo isso. Não é alguém que resolveu montar um tributo ao Renato Russo porque gosta do disco. É o cara que estava na sala quando aquelas músicas estavam sendo construídas. Isso conta demais e muda tudo.

Trilha conhece os arranjos por dentro. Conhece as escolhas, os timbres, as soluções encontradas no estúdio. E carrega também as histórias daquele período, inclusive aquelas pequenas coisas que não aparecem no encarte de um CD. É aí que um show comemorativo deixa de ser apenas uma homenagem. Vira uma chance de reabrir o arquivo.


Trinta anos é tempo pra caramba

Equilíbrio Distante chegou às lojas em 1995. Renato Russo nos deixou no ano seguinte. Isso, inevitavelmente, mudou a maneira como o disco passou a ser ouvido. O álbum ficou preso a um período muito específico da vida do artista, justamente quando ele estava produzindo também A Tempestade, o último disco da Legião Urbana.

Mas acho que vale fazer um esforço para tirar Equilíbrio Distante um pouco desse lugar de “último capítulo”. Porque ele é mais interessante do que isso. É um disco de experimentação. É um disco de versões que não soa como simples coleção de versões. É um disco em que um dos maiores compositores brasileiros da sua geração decidiu cantar em outra língua e descobrir o que acontecia.

E, principalmente, é um disco que mostra Renato Russo trabalhando. Não o mito. Não o personagem. O sujeito dentro do estúdio, implicando com uma textura, mudando um arranjo, escolhendo uma música, mandando gravar de novo.

É esse Renato que Carlos Trilha conhece.
E é esse Renato que, de alguma maneira, volta a aparecer quando aquelas músicas são tocadas novamente.
Eu amo dessa ideia.
Não de transformar Equilíbrio Distante numa peça de museu, dessas que a gente admira de longe e pronto.
Gosto da ideia de pegar o disco, abrir a tampa e colocar para tocar de novo.

Trinta anos depois, talvez a melhor homenagem seja justamente essa: deixar a música acontecer.

Serviço

BERLIN apresenta: Carlos Trilha em Equilíbrio Distante 30 anos

Data: 14 de outubro, quarta-feira
Local: Teatro Ademir Rosa, Centro Integrado de Cultura (CIC)
Realização: BERLIN
Produção executiva: Studio de Ideias Produtora Cultural

O espetáculo reúne Carlos Trilha, Claudia Bossle, Joe Cipriano e Paulo Loureiro para reconstruir ao vivo o repertório de Equilíbrio Distante e compartilhar histórias da produção do álbum.

Se você conhece o disco, talvez seja uma boa oportunidade para ouvi-lo de novo antes do show.
Se não conhece, melhor ainda.
Às vezes a gente precisa sair um pouco daquilo que já sabe sobre um artista para descobrir alguma coisa nova.

Equilíbrio Distante ainda tem bastante coisa escondida ali.

Sal

Jornalista, blogueiro, letrista, já fui cantor em uma banda de rock, fotógrafo, fã de música, quadrinhos e cinema...

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