Steven Soderbergh aposta em IA e divide fãs de John Lennon
Novo documentário produzido por Steven Soderbergh reacende debate sobre inteligência artificial no cinema e levanta uma pergunta desconfortável: até onde a tecnologia pode ajudar sem substituir a emoção humana?

O velho medo da máquina voltou ao cinema. E, como quase sempre acontece quando surge uma nova tecnologia, boa parte da discussão parece menos sobre a ferramenta em si e mais sobre o pânico em torno dela.
A polêmica da vez nasceu em Cannes, com John Lennon: The Last Interview, novo documentário de Steven Soderbergh centrado na última grande entrevista concedida por John Lennon e Yoko Ono no dia 8 de dezembro de 1980, poucas horas antes do assassinato do músico em Nova York.
Li a reportagem na Folha de S.Paulo, enviada pelo meu querido amigo Rafael Simi, e fiquei pensando numa coisa simples: talvez a gente esteja fazendo a pergunta errada sobre inteligência artificial.
Porque a questão não é se a IA deve existir dentro da arte.
Ela já existe.
A questão é quem está usando, para quê, e com qual intenção criativa.
Soderbergh revelou que cerca de 10% do documentário utiliza imagens criadas com inteligência artificial. Não para recriar Lennon digitalmente falando frases falsas, não para fabricar depoimentos inexistentes e nem para criar um deepfake grotesco. Segundo ele, a IA entrou apenas em momentos abstratos da entrevista, quando Lennon e Yoko mergulham em reflexões filosóficas sobre amor, espiritualidade, memória, criatividade e paz.
O diretor explicou que havia mais de mil fotos e materiais de arquivo cedidos pelo espólio da família Lennon e por Sean Ono Lennon, filho do casal. Só que certos trechos da conversa simplesmente não tinham correspondência visual possível. Como ilustrar pensamentos quase oníricos apenas com foto de arquivo? Foi aí que entrou a IA.
As sequências geradas incluem imagens assumidamente artificiais: flores se abrindo, bebês chorando, homens das cavernas, imagens surrealistas e metáforas visuais criadas para acompanhar o fluxo das falas de Lennon. Nada foi feito para parecer realista. Pelo contrário. Soderbergh afirmou que fazia questão de deixar evidente que aquilo era artificial.
E aqui está um ponto importante que muita gente parece ignorar.
O cinema sempre foi manipulação tecnológica.

Quando Georges Méliès fez truques de montagem no início do século XX, havia gente dizendo que aquilo “mataria a pureza” do cinema. Quando o som chegou, muita gente achou que destruiria a linguagem visual. Quando veio o CGI, parecia o fim da atuação humana. Quando surgiu o digital, anunciaram o enterro da película. Agora chegou a vez da IA ocupar o papel de vilã oficial da temporada.
Só que tecnologia não produz arte sozinha.
Ferramenta nunca substituiu visão artística.
Um sintetizador não destruiu a música. O autotune não acabou com o canto. O Photoshop não matou a fotografia. O problema nunca foi a existência da ferramenta. O problema sempre foi o uso banal dela.
E, sinceramente, parte da reação ao documentário me parece um pouco contaminada por esse medo automático da palavra “IA”.
Claro que existe um risco real de preguiça criativa. Claro que existem usos eticamente questionáveis. Claro que Hollywood adoraria cortar custos substituindo artistas por algoritmos. Isso é evidente. Mas uma rejeição absoluta também soa meio nostálgica demais, quase como gente que dizia nos anos 1980 que sintetizador “não era música de verdade”.
A própria postura de Soderbergh é mais sofisticada do que muitos comentários apressados sugerem.
Ele disse numa entrevista recente que não se sente ameaçado pela IA porque prefere entender a tecnologia antes de demonizá-la. Segundo ele, a ferramenta resolveu passagens “impossíveis de filmar” dentro da lógica estética do documentário.
E tem outro detalhe interessante.
Soderbergh não tentou esconder o uso de IA.
Isso muda muito a conversa.
Hoje existe um monte de conteúdo audiovisual usando inteligência artificial silenciosamente, sem crédito, sem transparência e sem debate público. O documentário de Lennon acabou virando alvo justamente porque assumiu o uso da ferramenta de forma aberta.
Talvez a reação violenta também tenha a ver com o personagem central da história.
John Lennon ocupa um lugar quase sagrado na cultura pop. Mexer com sua imagem provoca reações emocionais imediatas. Só que, ironicamente, Lennon provavelmente seria uma das últimas pessoas a demonizar experimentação tecnológica. O sujeito fazia colagem sonora, gravava ruído, brincava com fita ao contrário, desmontava padrões da música pop e vivia obcecado por novas linguagens artísticas. Sean Ono Lennon chegou a comentar que o pai certamente teria curiosidade sobre IA.
O mais curioso é que o próprio filme parece estar expondo um conflito maior do nosso tempo.
As pessoas não querem perder o elemento humano da arte. E elas têm razão nisso. Só que o humano não desaparece automaticamente porque uma nova ferramenta entrou na equação. O humano desaparece quando a arte vira cálculo, fórmula e repetição sem alma.
Isso pode acontecer com IA.
Mas também pode acontecer sem IA nenhuma.
Quantos filmes gigantescos hoje parecem produtos industriais emocionalmente mortos mesmo feitos apenas por humanos?
No fim das contas, talvez a inteligência artificial funcione como qualquer outra tecnologia criativa: ela amplia tanto o talento quanto a mediocridade de quem está usando.
Na mão de gente sem visão, vira muleta.
Na mão de artistas inquietos, pode virar linguagem.
E lutar contra a existência da tecnologia provavelmente é uma batalha perdida. A história inteira da arte mostra isso. O caminho mais inteligente talvez seja outro: discutir limites éticos, exigir transparência e, principalmente, separar uso criativo de preguiça industrial.
Porque a IA não vai embora.
Mas o bom senso também não precisa sair de cena.
Comentários