O poder invisível de quem transforma a vida em arte
Celebrado em 24 de agosto, o Dia do Artista vai muito além da homenagem: a data ajuda a discutir criação, trabalho, economia, cultura e o impacto da arte na vida

Uma música pode nascer no silêncio de um quarto. Um texto, rabiscado na mesa da cozinha. Uma pintura começa, muitas vezes, diante de uma tela que parece não ter nada a dizer.
Antes de chegar ao palco, à livraria, ao cinema, à galeria ou ao ouvido de alguém, existe um sujeito ali. Trabalhando. Tentando. Errando. Refazendo. Às vezes sem saber direito onde aquilo vai dar.
É desse sujeito que a gente fala quando celebra o Dia do Artista, em 24 de agosto.
A data costuma ser associada aos profissionais ligados à criação, interpretação e execução de obras culturais. Mas o calendário brasileiro tem outras datas dedicadas às artes. O Dia Nacional das Artes, por exemplo, é celebrado em 12 de agosto. Já 19 de agosto ficou associado ao Dia do Artista de Teatro.
Pode parecer apenas uma coleção de datas no calendário. Não é.
Essas comemorações também contam um pouco da história de como o trabalho artístico passou a ser reconhecido como profissão.
Em 1978, a Lei nº 6.533, de 24 de maio, estabeleceu normas para o exercício profissional de artistas e técnicos em espetáculos de diversões. A lei foi regulamentada pelo Decreto nº 82.385, de 5 de outubro daquele mesmo ano.
O texto define como artista o profissional que cria, interpreta ou executa obra de caráter cultural destinada à exibição ou divulgação pública.
A lei entrou em vigor 85 dias depois de sua publicação, em 19 de agosto de 1978. A data acabou ganhando uma relação forte com as artes cênicas e com os profissionais do setor.
Já o 24 de agosto passou a ser usado de maneira mais ampla para celebrar artistas de diferentes áreas. Música, literatura, artes visuais, teatro, cinema e tantas outras linguagens que, no fundo, têm uma coisa em comum: alguém decidiu criar alguma coisa e colocar essa criação no mundo.
E isso está longe de ser pouca coisa.
A arte não nasce fora do mundo
Existe uma mania de tratar a arte como se ela estivesse acima da vida. Um lugar bonito, distante, quase sagrado.
Eu desconfio disso.
Arte nasce justamente no meio da bagunça.
Ferreira Gullar dizia que “a arte existe porque a vida não basta”. É uma frase curta, mas que abre uma porta enorme. Porque talvez seja exatamente isso. A gente cria quando precisa dizer alguma coisa que a linguagem cotidiana não dá conta de dizer.
Bertolt Brecht enxergava a arte por outro ângulo. Para ele, ela também deveria ajudar o público a olhar para a realidade com alguma distância crítica. Questionar aquilo que parece normal. Cutucar o que está acomodado.
Nina Simone foi ainda mais direta. Em uma entrevista de 1968, afirmou que o dever do artista era refletir o seu tempo.
E não é difícil entender o que ela queria dizer.
Uma canção pode carregar o espírito de uma época. Um filme pode revelar aquilo que uma sociedade preferia esconder. Um romance pode registrar uma mudança de comportamento antes mesmo de alguém perceber que ela está acontecendo.
No Brasil, a educadora Ana Mae Barbosa aproximou arte, educação e contexto social por meio da chamada Proposta Triangular, que articula fazer artístico, apreciação e contextualização.
São ideias diferentes. Não precisam caber na mesma gaveta.
Mas todas apontam para algo que considero fundamental: o artista não cria no vácuo.
Ele vive aqui. Vê o que a gente vê. Escuta o que a gente escuta. Sofre as mesmas crises, paga contas, pega trânsito, se apaixona, perde gente, comemora, se revolta.
E transforma parte disso em outra coisa.
E quando a arte vira trabalho?
Aqui começa uma conversa que, para mim, precisa ser feita com mais honestidade.
Porque existe uma romantização danada do artista.
Fala-se muito de inspiração. Pouco de boleto.
Fala-se da paixão pela criação. Nem sempre se fala de contrato, cachê, direitos autorais, produtor, técnico, transporte, aluguel de espaço, divulgação, equipamento e toda a turma que precisa estar ali para uma obra acontecer.
A cultura também é economia.
Segundo dados apresentados no levantamento que serviu de base para esta matéria, a Economia da Cultura e das Indústrias Criativas representa 3,11% do PIB brasileiro, acima da participação estimada da indústria automobilística, de aproximadamente 2,50%.
O número chama atenção justamente porque desmonta uma ideia antiga: a de que cultura é apenas aquilo que sobra depois que a economia “de verdade” funciona.
Não é.
A chamada Economia da Cultura e das Indústrias Criativas (Ecic) reúne atividades muito diferentes. Tecnologia da informação, software e jogos digitais aparecem como o maior agrupamento. Também entram arquitetura e urbanismo, publicidade, comunicação, música, artes cênicas, artes visuais e setor editorial.
Pense num show.
O público enxerga o artista no palco.
Mas, antes disso, alguém montou o palco. Alguém cuidou do som. Alguém vendeu os ingressos. Alguém criou a identidade visual. Alguém transportou equipamento. Alguém fez a divulgação. Alguém fotografou. Alguém limpou o espaço.
A cadeia é muito maior do que aquilo que aparece na foto.
A Lei Paulo Gustavo, criada pela Lei Complementar nº 195/2022, também oferece um exemplo concreto dessa movimentação. Foram destinados R$ 3,862 bilhões a estados, municípios e Distrito Federal. Desse total, R$ 2,797 bilhões foram para o audiovisual e R$ 1,065 bilhão para outras linguagens artísticas.
E há um dado que merece atenção.
Segundo pesquisas citadas no material, estudos da Fundação Getulio Vargas apontaram que, na execução municipal da Lei Paulo Gustavo, cada R$ 1 investido diretamente na economia criativa gerou R$ 6,51 em retorno econômico direto e indireto para a atividade econômica local.
Ou seja, aquele dinheiro não simplesmente desaparece dentro de um projeto cultural.
Ele circula.
Vai para serviço, comércio, turismo, profissionais contratados e arrecadação.
A arte pode até começar num quarto. Mas, quando ganha escala, ela coloca muita gente para trabalhar.
E tem uma parte dessa história que não cabe numa planilha
A arte também mexe com a saúde.
Em 2019, um relatório da Organização Mundial da Saúde, produzido pelo Escritório Regional para a Europa, reuniu mais de 3 mil estudos sobre a relação entre artes, saúde e bem-estar ao longo da vida.
O levantamento encontrou evidências de que atividades como música, teatro, dança e visitas a museus, galerias e teatros podem contribuir para a promoção da saúde, a prevenção de doenças e o apoio ao tratamento de determinadas condições.
Também aparecem relações com redução do estresse, fortalecimento dos vínculos sociais e desenvolvimento cognitivo.
Em grupos vulneráveis, projetos artísticos podem ajudar a combater o isolamento social e fortalecer a resiliência emocional.
Pesquisas mais recentes citadas no material seguem apontando nessa direção, associando a participação cultural a indicadores de saúde mental e satisfação com a vida.
E aqui a coisa fica interessante.
Porque talvez a gente não precise de um gráfico para entender isso.
Todo mundo conhece, ou já foi, aquela pessoa que encontrou numa música, num filme, num livro, numa peça ou numa pintura um jeito de atravessar uma fase complicada.
Às vezes a arte não resolve nada.
Mas ajuda a aguentar.
E isso já é muita coisa.
Celebrar o artista é olhar para além do palco
No fim, o Dia do Artista pode ser mais do que uma data para publicar uma foto de alguém famoso e escrever “parabéns aos artistas”.
Pode ser uma oportunidade para olhar para o trabalho que existe antes da obra chegar até nós.
O artista pode estar diante de 50 mil pessoas.
Ou diante de uma folha de papel.
Pode estar num palco, num estúdio, numa oficina, num ateliê, numa sala de ensaio ou escrevendo sozinho durante a madrugada.
Pode trabalhar com música, teatro, cinema, literatura, dança, pintura, escultura, fotografia ou qualquer outra linguagem.
Não existe uma receita.
Existe o trabalho de transformar uma ideia em alguma coisa que possa ser compartilhada.
E, quando essa coisa encontra outra pessoa, acontece algo que nenhum contrato consegue prever.
A obra muda de dono.
Não juridicamente, claro. Mas emocionalmente.
Uma música que o compositor escreveu por um motivo pode significar outra coisa para quem escuta. Um livro pode encontrar um leitor numa idade completamente diferente daquela imaginada pelo autor. Um filme pode atravessar alguém de um jeito que seu diretor jamais teria previsto.
É aí que a arte fica realmente interessante.
Ela escapa.
Talvez essa seja uma das coisas mais bonitas e mais estranhas do trabalho artístico. O artista cria sozinho, mas a obra só termina quando encontra alguém.
Por isso, neste 24 de agosto, eu prefiro olhar para o artista menos como uma figura distante e mais como trabalhador da cultura.
Alguém que cria.
Alguém que corre atrás.
Alguém que muitas vezes trabalha muito sem saber se o próximo mês vai ser tranquilo.
E que, apesar disso, insiste.
Porque uma música precisa nascer. Um livro precisa ser escrito. Uma peça precisa subir ao palco. Uma imagem precisa existir.
A arte não é enfeite.
Ela registra o tempo, provoca conversa, guarda memória, movimenta dinheiro, cria trabalho e, em certas horas, segura a gente pela mão.
No fim das contas, talvez seja por isso que ela continue existindo.
Porque a vida, sozinha, às vezes não dá conta de dizer tudo.
por Ariston Sal Junior
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