Lourandes e o Dark Pop Brasileiro: identidade antes do hype

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Antes da tendência, a construção

Existe um momento muito particular na trajetória de um artista. Um instante em que ele ainda não virou rótulo, ainda não foi embalado por algoritmo, ainda não virou consenso apressado. É um território delicado, quase íntimo.

É nesse território que eu situo a Lourandes.

Ao longo da nossa conversa no Pitadas do Sal, ficou claro que não estamos diante de alguém tentando ocupar uma tendência. Estamos diante de alguém tentando entender o próprio tempo através da música.

Em determinado momento, ela disse algo que sintetiza essa postura:
“Eu nunca comecei pensando em fazer dark pop. Eu comecei tentando traduzir o que eu estava sentindo.”

Essa frase diz muito. Porque o gênero, aqui, não vem antes da emoção. Ele nasce dela.


Estética como pensamento

Quando se fala em dark pop, muita gente imagina apenas atmosfera sombria, sintetizadores densos, uma certa teatralidade noturna. No trabalho da Lourandes, isso existe. Mas não é figurino. É linguagem.

Há um cuidado evidente com imagem, identidade visual, narrativa. Mas nada soa como embalagem vazia. Durante o papo, ela comentou:

“A estética pra mim não é só visual. É o jeito que eu penso a música.”

Essa afirmação desloca o debate. A estética deixa de ser ornamento e passa a ser estrutura. A escolha do timbre, a textura do beat, o silêncio entre as camadas sonoras, tudo comunica.

O dark pop, no caso dela, funciona como cenário emocional. É onde o excesso, a ansiedade, a intensidade afetiva e a solidão digital encontram forma.

E talvez esse seja um dos pontos mais interessantes da sua obra: ela compreende que som também é discurso.


Amor, repetição e espelho digital

Quando falamos sobre o projeto Pra não dizer que não falei de amor, a conversa inevitavelmente caminhou para as contradições das relações contemporâneas.

Ela mesma resumiu com franqueza:
“Eu falo de amor, mas não é um amor idealizado. É um amor atravessado por ego, rede social, comparação.”

Essa consciência gera tensão nas canções. Não há romantização ingênua. Há intensidade, sim. Há glamour. Mas há também repetição de padrões, frustração, busca por autoestima.

O amor, aqui, não é promessa de redenção. É campo de conflito.

E essa fricção conversa diretamente com uma geração que vive conectada, performando felicidade, mas enfrentando silêncios profundos fora da tela.


Crescer sem se diluir

Um ponto que me chamou atenção ao analisar sua trajetória foi a evolução técnica. As produções mais recentes apresentam mais refinamento, mais densidade, mais intenção nos arranjos.

Perguntei sobre esse processo. A resposta foi reveladora:
“Eu estou aprendendo a produzir melhor, mas sem perder o que me fez começar.”

Essa frase carrega maturidade. Crescer, no cenário atual, costuma significar adaptar-se às métricas. Ajustar o som ao que performa melhor. Simplificar para alcançar mais.

Mas há uma diferença entre ampliar alcance e diluir essência.

No caso da Lourandes, percebe-se um esforço consciente de equilíbrio. Aproximação com o pop mais amplo, sim. Mas preservando o eixo emocional que sustenta sua identidade.


Independência como posição

Outro aspecto que atravessou a nossa conversa foi a questão da independência. Não apenas financeira, mas criativa.

Ela produz parte do próprio trabalho. Isso altera tudo. Quem escreve e produz assume integralmente o risco estético.

Em determinado momento, ela afirmou:
“Ser independente me dá liberdade, mas também me dá responsabilidade.”

Essa frase sintetiza o paradoxo da cena atual. A autonomia amplia possibilidades, mas também exige visão estratégica. Lourandes demonstra ter consciência disso ao trabalhar presença digital, bastidores e construção de comunidade.

Hoje, comunidade sustenta carreira. Não é detalhe. É estrutura.


Vulnerabilidade como matéria-prima

Vivemos uma época em que vulnerabilidade virou tendência estética. Mas há uma diferença importante entre usar fragilidade como efeito e assumir fragilidade como núcleo.

Na obra da Lourandes, a vulnerabilidade não aparece como adereço. Ela é eixo. Ansiedade, excesso de informação, autoestima, conflitos afetivos.

Durante o papo, ela comentou algo que ficou ecoando:
“Eu não quero parecer forte o tempo todo. Eu quero parecer verdadeira.”

Essa escolha não é confortável. Não busca agradar todos. E talvez aí resida sua potência.


O que pode vir a ser

O dark pop brasileiro ainda está em formação. Isso significa que não há modelo consolidado. Há espaço.

Se Lourandes continuar aprofundando escrita e refinando produção sem abrir mão da coerência estética, pode ocupar um lugar de referência nesse nicho.

Mas esse possível protagonismo não virá de fórmula. Virá de consistência.

E consistência, no fim das contas, é aquilo que atravessa o tempo quando a tendência já passou.


Pra terminar…

Ao final da conversa, fiquei com a sensação de ter encontrado uma artista em processo de construção consciente. Não uma aposta moldada pelo hype, mas uma criadora que entende o próprio tempo e tenta dialogar com ele.

Lourandes não é unanimidade. Nem precisa ser.

É uma artista que constrói universo, assume vulnerabilidade e entende estética como pensamento.

E acompanhar alguém nesse estágio, antes da avalanche, continua sendo uma das experiências mais ricas que a música oferece.


Sal

Jornalista, blogueiro, letrista, já fui cantor em uma banda de rock, fotógrafo, fã de música, quadrinhos e cinema...

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