Propaganda e a praga (?) do politicamente correto

Que no tempo em que vivemos existe uma melhora significativa em uma ampla gama de situações, não há dúvidas. Porém, em alguns setores, principalmente do entretenimento e da cultura, os tempos antigos eram infinitamente melhores. No humor, na música e na propaganda, a patrulha do politicamente correto tornou-se uma rocha nos sapatos das mentes criativas. “Buylling” e “preconceito”  são tratados com certo exagero, na minha opinião, e isso podou/poda a criatividade, a liberdade criativa. Concordo que certos exageros devam ser revistos, mas será que na música bandas como Raimundos, do famigerado Puteiro em João Pessoa e os Mamonas Assassinas, que caiu no gosto da meninada fariam sucesso hoje em dia? E Os Trapalhões? O melhor grupo brasileiro de humor que o país já conheceu, com piadas “machistas”, “preconceituosas”, racistas e aquele buylling maroto, será que se criaria nos tempos atuais? Será que algum patrocinador apostaria as fichas em um programa do gênero?

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Foi revendo a propaganda dos bombons Garoto, criado pela agência W/Brasil, acho que no início dos anos 1990, que eu percebi que falta um pouco de ousadia também na publicidade. Nós, que já fomos um celeiro de criatividade, deixamos de produzir peças geniais, como a do “Meu primeiro sutiã”, ou as geniais propagandas de cigarro, com suas trilhas sonoras marcantes, que deixa no chinelo qualquer propagandinha da Red Bull (que não dá asas a ninguém). Queria uma sociedade mais ousada e criativa e menos chata e policiadora.

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Comerciais

Mussum e a “pindureta”

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A evolução dos comerciais do cigarro Hollywood

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Sátira do “meu primeiro sutiã, com Eduardo Sterblitch

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E o original…

Abaixo um comentário deixado por um leitor, na antiga versão do blog

Luis // 30 de novembro de 2014 em 11:52 // Responder
Sabe, Sal, várias vezes já pensei sobre esse assunto e já conversei sobre ele com algumas pessoas. Várias concordam comigo e com você (talvez até a maioria deles), e discordam por uma ou outra coisa. E as discordâncias me revelam mais que as semelhanças, porque elas discordam naquilo que as afeta, o que me levou a uma reflexão:
Todos os grandes mestres da comédia do meu tempo: Os Trapalhões, Jô Soares, Chico Anysio, Golias, etc. tinham suas piadas baseadas no estereótipo, o que sempre descambou para as diferenças “raciais”, a gostosa, a gorda, o gordo, o gay, o “corno”, a “sogra”… Chorei de rir com as piadas deles, elas alimentavam nossas gozações na escola, mas agora tudo isso é apontado como errado. Por quê??? Isso era tão normal… Não sei o seu caso, mas eu sou homem, branco, magro, heterossexual, de classe média, ou seja: eu NUNCA estava no polo “engraçado” da piada. Aí é fácil, né?
Mas alguns dirão que havia negros, gordos, meninas e até gays no colégio que também riam das piadas. Sim, havia, porque naquele tempo essas pessoas “sabiam” que havia alguma coisa “errada” com elas, que estavam fora do “padrão” e portanto era delas a responsabilidade de suportar o fardo de serem “diferentes”. Quem nunca viu um gordo rindo de si mesmo (o Jô não fez a carreira em cima disso)? O mesmo vale para o Mussum, ou para o LaFond (a “Vera Verão”, lembra?). Rir para não chorar, achincalhar a si mesmo para não ser achincalhado pelos colegas sempre foi a melhor defesa dos que sofriam o bullying, num tempo em que isso não tinha esse nome, mas doía do mesmo jeito.
Pensando nisso, entendi que até hoje tenho dificuldade em compreender a importância do chamado “politicamente correto” porque nunca fui afetado pessoalmente pelo “incorreto”. Aliás, quando insisto em falar a palavra “politicamente”, estou resistindo à ideia de aceitar tal princípio, pois essa palavra é totalmente desnecessária. Afinal, evitar piadas ou expressões racistas, machistas, homofóbicas, gordofóbicas e que exploram estereótipos sociais não seria, simplesmente, “correto”? Por que adjetivar essa correção com um termo pedante, senão para relativizar tal correção, como se ela fosse aplicável somente ao discurso público, mas não às nossas atitudes pessoais cotidianas?
Sem dúvida, preocupar-se com isso levanta barreiras à expressão de ideias, o que sempre leva ao debate sobre “liberdade de expressão”. Porém, como já foi discutido no caso do Levy Fidélix, quando a liberdade de expressão entra em choque com a dignidade humana, esta última deve prevalecer. Porém, restrição à expressão não significa restringir a criatividade. Ou, melhor ainda, significa direcionar corretamente essa criatividade. Se achamos mais adequado que engenheiros criem tecnologia para salvar vidas do que empreguem sua criatividade para criar armamentos, porque não preferir que escritores, humoristas e publicitários desviem suas mentes de temas que fomentem preconceitos? Será mesmo que estamos tolhendo a criatividade ou apenas exigindo mais esforço na criação de peças e textos mais inteligentes, em vez da simples exploração do território do estranhamento da diferença, tão cômodo, simplório e primitivo, e por isso mesmo de retorno garantido?
Porém, a maior parte dos vídeos (ótimos, por sinal) que você incluiu não falam de “diferenças”. Eles não mais se enquadram na moderna noção de “correto” (simples assim) porque perdemos a inocência. E é disso que gente como eu e você sentimos falta, pois poucas coisas são mais nostálgicas que a inocência perdida. São vídeos de um tempo em que podíamos ver uma criança nua na TV sem imaginar que alguém poderia ver algo além. Um tempo em que acreditávamos que a inocência dela era inatingível e incorruptível, a não ser pelo tempo, mas o tempo nos mostrou que não era bem assim e que temos de considerar esses desvios.
Mas eu não creio que essas mudanças apontem um mundo pior. Ao contrário, elas apontam um mundo onde está cada vez mais difícil esconder, embaixo dos tapetes, atrás das paredes e atrás das risadas, os problemas do ser humano. Um mundo onde a ideia de que “a vida é assim mesmo” não serve mais, pois somente enxergando o que ele tem de errado é que poderemos fazer dele um lugar melhor, não acha?
Por isso, apesar de ler o seu texto e concordar com você em minha emoção, minha razão me diz que graças aos céus estamos errados.
Um abração!

Sal

Jornalista, blogueiro, letrista, já fui cantor em uma banda de rock, fotógrafo, fã de música, quadrinhos e cinema...

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